O Brinde de Allah

* Contos — Myriam de Carvalho @ 5:17 pm

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O Brinde de Allah

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…Dizem eles que esta Conferência do Rio vai ser a última, a decisiva. Ou recuperam a Terra e refazem os maus efeitos de tanta imprudência, ou então…

…Volvo os olhos para o mausoléu. Continua à minha guarda. Não me canso de o contemplar – quanto mais o contemplo, mais o amo

…Que não deve ser admirado às horas rubras do calor, mas apenas sob os raios doces dos crepúsculos. Deixo-os falar – para mim é sempre sublimemente belo. Inscrevi a sua alvura marchetada entre duas linhas imaginárias, traçadas desde a extremidade da base quadrada até ao cimo da cúpula, formando um triângulo rectângulo – esse triângulo que Platão dizia ser o mais perfeito. É a minha vida – e essa forma que oculta é a forma das piras funerárias, a forma do fogo…

Mas visto do Jamuna, dir-se-ia navegar.

Assentei a construção sobre um quadrado. Assim, é o Céu dentro da Terra – representa um paraíso.

Cercado, todavia. Um paraíso cercado.

Obviamente. Sempre assim pensei. Aliás, são coisas que não se pensam – ou se é, ou não se é. Fazem parte de nós. Os paraísos devem ser indesvendáveis. O fausto deve constituir uma miragem. Os simples precisam de nós como referência – para sonharem. Para reverenciarem. Para adularem e invejarem. Para odiarem, em suma, para se voltarem uns contra os outros, para reciprocamente se destruírem. A Diferença tem sido um grande motor da História.

Logo cedo, porém, as riquezas do mausoléu começaram a ser pilhadas. Foi meu próprio filho, o usurpador que me destronou, quem abriu a via da delapidação. Arrebatou e mandou fundir as grades de ouro que rodeavam o túmulo de Arjumand Banu Begum.

Daí para cá, apesar de roubado e diariamente violado, enfim, já não me permito inquietar-me. Todos esses violadores são de um modo ou outro, admiradores. Uns, porque me invejam o antigo poderio. Outros, porque se extasiam perante esse ideal do grande amor. Quem não quereria ser tão amado, ou amada, que assim fosse perpetuado até ao fim dos séculos?

Poucos sabem – e sempre assim pensei, aliás, há coisas que nem se pensam – ou se é, ou não se é… – sou irmão dos faraós, dos reis-sol, dos furers, dos estalines. Dos grandes fazedores de impérios – os guias e os folhetos turísticos omitem isso.

Invejam-me o antigo esplendor. Hã!, queriam deslumbrar-se perante tanta magnificência – como? Já se viu tamanha maravilha caída do céu? Ninguém estima quantas maldições nos custa um império.

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…Andam aflitos porque é preciso salvar a Terra. Isso diz-me respeito. Edifiquei o mausoléu para a eternidade. Mumtaz Mahal, minha eleita, a Eleita Do Meu Palácio, não pode morrer. Não que nossos ossos habitem ainda a cripta obscura e solitária. Mas porque no meio do ódio e da dor que espalhei, Arjumand Banu, a eleita dentre as minhas esposas, foi um brinde de Allah, ou, usando uma linguagem mais universal, um brinde de Deus…

O edifício – acabei de vo-lo recordar – foi planeado com aquela base quadrada, a representar a Terra. Os minaretes, os pilares que a sustentam. A sua cúpula, o globo do Céu.

Só agora compreendo como é muito mais que isso. O mausoléu – dizem que o mais belo monumento que existe na Terra – é a imagem perfeita da nossa condição.

A vida faz-se à custa da vida. Ou antes, da morte. Sempre assim pensei – ou antes, está escrito.

Matei o meu irmão, e metade da minha família restituí ao pó: consegui o império.

Sobre saques, traições e sangue.

Mas Allah – ou seja, Deus, em sua imensa e misteriosa sabedoria, depôs este brinde na minha vida. Um amor magnífico. E a sua memória.

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…Dizem, alguns dentre esses que se encontram no Rio, que ainda há problemas mais urgentes a resolver do que a conservação do Planeta! Ah, que há que erradicar a pobreza! Erradicar  pobreza – hi, hi, como são cínicos… como me superam!

Fingem ignorar que essa forma de energia auto-destrutiva que é a explosão demográfica não passa de metástases do cancro. Nos últimos trinta anos, a população de Agra subiu à razão de 173%! As indústrias que se desenvolvem na cidade e ao seu redor não se destinam apenas a apascentar essa gente, mas sobretudo a alimentar o cancro, ah, ah, ah, a Diferença!

Pensarão, talvez, vocês todos, que Akbar, o Máximo, foi um visionário quando quis fundir hindus, muçulmanos e cristãos?! Através do irenikon, essa artificiosa síntese dos três credos? Ah, todos os caminhos vão dar a Roma, quer dizer, servem para consolidar impérios, para glorificar os senhores.

Erradicar a pobreza. Ah, ah, conheço-as bem, as lágrimas dos crocodilos. Nos finais do vosso século XX! Quando se assiste a uma autêntica invasão de

deserdados na Europa do Sul. Ah, ah, ah. Enquanto puderam roubar, colonizar – como se dizia –, desenvolveram-se! Agora, que tal como o mel, atraem as moscas, sentem-se invadidos. E temem a recessão.

…A verdade é que até o meu mausoléu está a acabar. A corromper-se.

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Allah – que o mesmo é dizer, nas vossas línguas, Deus – concedeu-me um outro brinde. O amor das belas-artes. Todos os tiranos amam as artes – e isso, já vocês sabem. O que não sabem, é que a Beleza eleva-nos do poço, faz-nos esquecer a lama, ajuda-nos a respirar.

.A Grande Esfinge, o Parténon, estão a morrer. O meu Taj Mahal está a morrer. Os minaretes que simbolicamente seguravam o Céu, suportam agora este facto real, concreto – as toneladas de cinzas expelidas pelas chaminés industriais de Agra e Mathura. O meu mausoléu, como actual cartaz turístico, atrai proventos à cidade. Não fossem, no entanto, as chaminés poluentes, quem manteria, ainda que pelos mínimos, o milhão de habitantes de Agra e Mathura?

Entretanto, todos o sabemos. No dia em que se desmoronar, no dia em que o meu Taj Mahal cair, o túmulo negro que não cheguei a construir para mim, erguer-se-á para todos vós.

…Daqui, de dentro da minha cripta obscura, contemplo o mausoléu. E o mundo, lá ao longe. Na verdade, parece-me que o tempo dos impérios está a esgotar-se. É esta peste, esta nova peste que grassa por todo o Planeta. Há quanto tempo já começaram a fazer-se ouvir as sirenes de alarme?!

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Até aqui, compreendo-o agora, a vida tem vindo a alimentar-se da vida. Isto é, da morte. Porque o homem é esse irracional total que para assumir impunemente os comportamentos do predador, se acoberta do direito divino. Como Akbar, como eu próprio

…Até que aqui nos encontramos todos nós, vocês e eu, neste tempo das realidades irremediáveis.

Penso, inevitavelmente, no grande sonho de Akbar, meu avô. Começo a desconfiar – talvez ele não tenha sido assim tão pragmático, quem sabe? O irenikon, esse ideal universalista – como eu me ria, nesse tempo!

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Talvez fosse esse o grande brinde de Allah, Deus – e de todos os Deuses.

…Eu quero, eu quero absolutamente que me salvem o mausoléu!

…E se acabar, esse grande reino da Diferença, o que ficará aos homens? Quem voltará a juntar fortunas de fábula para elevar pirâmides, alhambras, muralhas…

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…Pôr cobro, enfim, àquilo que tem sido o grande motor da História…

…Quantas vezes me ri dos filósofos de meu avô e desse famoso irenikon.

Presentemente, ouvindo-vos falar de pacifismo, recordo as velhas querelas. Contra a minha vontade, contra a minha lógica, …e não consigo impedir-me de pensar nisto. …Quem sabe? Esse antigo sonho não poderá ser o grande, o autêntico, o verdadeiro brinde de Allah? Um pacifismo? Universalista?

Ainda se encontra ao alcance de Vocês todos. Quem sabe se à sua sombra, por uma razão ou outra, o grande predador não se volverá humano… um pouquinho só… Só um nico de humanidade, e talvez já chegasse para evitar o tempo calamitoso que se aproxima…

…Observo as minhas paredes, os meus estuques. Cada dia mais enegrecidos… As decorações murais, desagregando-se, caindo. As águas serenas do sereno Jamuna, progressivamente, a subirem o seu nível.

…Tudo me obriga a reconhecer que são urgentes novos paraísos.

Porém, e ainda que a conrta-gosto, paraísos sem muros, sem portões.

…Nessa altura, sim, a Sabedoria divina – o fruto proibido – estará ao alcance da mão humana.

Os caminhos que há tanto tempo vimos traçando, não passam de aparências, de desvios. É forçoso reconhê-lo. Lia mal quem lia “Está escrito”!

Pois isto é a condição humana. Só depois do erro cometido o reconhecemos, só depois da morte encontramos a verdade… Só depois de auto-destruídos, sabemos que poderíamos tê-lo evitado…

…Tudo isto agora me faz sorrir amargamente… Não se poderá dizer que eu não tenha cingido o profundo sentido desse velho ideal, o irenikon, sem uns séculos de atraso.

É isso, o grande, o temível Predador cultiva a Beleza – endeuza-se aos olhos do vulgo – mas guarda o coração fechado à Sabedoria. A Beleza, tal como o Poder, ou a Morte, só por si, não chegam para nos guindar à Luz…

…Mas Vocês, ultrapassem-se! Ultrapassem-se! Durante muito tempo, no meu desespero e impotência, pensei em abanar-vos, e gritar-vos – matem-se uns aos outros, esterilizem-se, suicidem-se!

Mas agora sei que já não poderá ser essa a via. Vão ter que distribuir – equitativamente, a Cultura e a Riqueza. Vão ter que abater as fronteiras erguidas pelo cinismo daquilo a que chamam a colaboração entre o Norte e o Sul!

…E salvem-me o Taj Mahal. O símbolo da nossa condição – o símbolo da condição humana.

Talvez, como dizia o Poeta, o pólen da pétala da rosa possa conduzir-nos, enfim, ao coração do vendedor de perfumes

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Shah Jahen

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A propósito da Conferência do Rio, 1993

Conto que aconteceu após ouvir no rádio o Presidente Georges Bush (pai), no discurso inaugural de uma conferência de empresários americanos,

a coincidir com os preparativos para a Conferência do Rio, de 1993:

Dizia ele:

“Que nunca a ecologia leve a melhor sobre os interesses económicos”

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© Myriam Jubilot de Carvalho, 1993

Conto publicado no Suplemento Literário

do jornal Correio Beirão, 1993

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

em 17 de Agosto de 2009

Retocado em 2 de Maio de 2015

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1 Comment »

  1. Um brinde a Allah e porque não à Myriam por todas as sensações que nos transmite?! Parabéns pelo blog e claro por todo o seu conteúdo! 🙂

    Comment by Carla Pereira — October 2, 2009 @ 1:18 pm

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