Mater Dolorosa, Versão Séc. XX

* Contos — Myriam de Carvalho @ 11:37 pm

 Mater Dolorosa, Versão Séc. XX

Guerra do Líbano, Terra de Ninguém

À Noémia Seixas

Às mães de todo o mundo

Mandaram-na atravessar a Terra de Ninguém. O boss. Com seu ar de nouveau venu alçado a alto executivo, as ombreiras do fraque cheias de caspa, a pança a saltar do cinto, a borboleta preta às três pancadas sob o colarinho ensebado e desabotoado. Mas era o boss.
Mandaram-na atravessar a Terra de Ninguém. A ordem veio descendo as vias hierárquicas descendentes. Ninguém se opôs. Ninguém perguntou porquê.
Mandaram-na atravessar a terra de Ninguém. Sem salvo-conduto. Sem Cruz Vermelha. Sem bandeira branca. O camuflado, do lado das costas, era negro, como o fraque do grande boss. Do lado da frente, alagartado, como os fatos de combate do in.
Proibição absoluta de se ocultar de arbusto em arbusto – a travessia seria feita bem pelo meio, durante os 5Km, sandálias romanas para não fazer ruído pelos trilhos pedregosos descarnados pelas chuvas.
“Neste momento, fazia-me bem um sumo, um sumo fresco – pensou… Um sumo só vinha dar mais nas vistas. Iam pensar que era uma fonte, um sortilégio no meio do deserto.”
Quem pensa, seus medos espanta. Talvez. Talvez espante os seus medos, mas não os dos outros. Que estavam lá, no seu posto, vigilantes. O general, monóculo cesariano, a couraça das condecorações a acariciar-lhe os peitorais, picou a sentinela com o bastão:
– Quem vem lá? – perguntou a sentinela.
Calavam-se, aqueles que a mandavam. Calavam-se.
– Quem vem lá?
“Porque não respondem? Disseram que eram eles a responder…” Esforçava-se por não pensar, por manter os pés atentos às saliências bicudas ou escorregadias das pedras. “Porque não respondem? Eles é que me enviaram.”
– Quem vem lá?
“Para onde é que me fugiu a voz? Volta! Volta, que me fazes falta! – Hum… Heim… Gente de paz!”
– Senha desconhecida! Não existe! – explodiu, surpresa, a sentinela.
O general, o monóculo instalado na poltrona adiposa da órbita, exigiu do ajudante-de-campo a confirmação, nos computadores. Mesmo atingidos, funcionavam sempre. Gente de paz. Senha desconhecida.
– Quem vem lá? – insistiram. – Ou respondes concludentemente, ou…
Ela avançava. O chão escaldava.
O ajudante-de-campo enristou os binóculos.
– Meu general, a intrusa enverga um uniforme dos nossos.
Berro fluorescente do general, ofuscando as reverberações do meio-dia sobre os metais das armas e munições do paiol. Sacudindo o bastão nas botas envernizadas:
– Responde concludentemente, ou disparamos.
Ela não via o trilho pedregoso, escorrido pelas chuvadas. Via, isso sim, um filho em cada arbusto, o esgar do boss no rosto leporino do general.
“É do sol – pensou. Preciso de lá entrar…
…Ou matam-me os filhos.”
Avançava. Avançava sempre. Estava perto. Derretida como as asas de Ícaro, os cabelos pegados à cabeça, à testa. O suor correndo de fio pela testa abaixo, pingando pelo nariz, pelo queixo, escorrendo por entre os peitos, pelo umbigo, descendo irritantemente pela espinha. As sandálias escorregando pelos seixos.
O camuflado só atrapalhava.
Mas chegou. Ou quase.
Que é que foi? Sirenes? Estilhaços de castanholas? Baquetas, lâminas de marimba subindo no céu como foguetes? Caindo sobre ela. Como lágrimas. De fogo.
Uma dor no peito. Apesar do sol, as estrelas desciam à volta dela para a queimarem mais. O camuflado só atrapalhava.
Já não caminhava. Arrastava-se. A dor já não era bem no peito, que já lá não estava. A dor era uma onda que a submergia.
Conseguiu retomar algum fôlego. Para mais uns passos. Chegou ao arame farpado. A sentinela ia cortá-lo, para lhe dar passagem.
Brandindo o bastão, o general desferiu-lho nas mãos e o homem cambaleou.
Nem um insecto infectava o descampado.
Como os espinhos na cabeça dum Cristo, espremeu-se sob a vedação, as farpas do arame a cravarem-se-lhe no corpo.

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Estava agora do lado de lá, do lado do in. Foi então que o general confirmou as cores do camuflado.

– Donde vens?
– Do outro lado, do lado do boss negro – respondeu ela.
– Para quê?
– Para salvar os meus filhos – respondeu ela.
– De que os acusam?
– De terem nascido…
– Então, és culpada! – O general sentiu orgulho na metafísica da conclusão. Acrescentou – Que é que querias – pariste garanhões! – Mas breve regressou às questões essenciais da táctica e da estratégia onde se sentia tão à vontade. – Para quê este camuflado da nossa cor?
– Para ser aceite…
Gargalhada. Gargalhada tão tonitroante do general que o monóculo saltou, ficando de balancé na extremidade do fio de ouro que o sustentava. Até os submissos auxiliares conseguiam rir, rir, rir.
– Bem. Supondo que te aceitamos. Que tens no peito?
– Tive uma grande dor. Quando se quebraram as cordas e a guitarra estoirou. Agora já não tenho nada.
A mais desbragada de todas as gargalhadas transpôs as goelas do general. Os outros riam também.
– Tiveste uma dor, hein? E agora? Já não tens nada? Perdeu-se?! Fugiu?
– Espalhou-se… Acho que se espalhou pelo corpo todo…
O bastão voltou a subir no ar. Subiu acima das cabeças deles, acima dos tanques, acima das montanhas de mísseis.
– Qual era mesmo a tua senha?
– Gente de paz…
– Mas isso é uma provocação! – berrou o general. – Quem foi que te vendeu essa?
Ela hesitou. “Onde foi que aprendi isto? Com o boss, não, de certeza. Onde raios foi que eu aprendi isto?!”
Agarrando o bastão que descia, ele apontou-lho aos olhos:
– Onde aprendeste isso?! Quem te passou essa senha inexistente?
–É minha, esteve sempre dentro de mim, quando os meus filhos eram pequenos e dependiam dos meus cuidados, da minha vida – quando tinha o coração no peito – respondeu ela, sentindo a vida por um fio.
O bastão bailou nas mãos hábeis do general. Era o seu número preferido, exibir manoletes com o seu bastão de castão de marfim. Mas desta vez o tempo urgia. Introduziu na exibição o código que os do lado negro reconheceram e de ambos os lados deflagraram as metralhadoras.
Ela agarrou-se ao buraco do peito:
– Meus filhos, meus filhos! Tanta coisa para nada…
– Agora já não fazes aqui nada – informou o general, comprimindo o monóculo com ricto piedoso. – Volta à tua gente!
– Já não tenho gente… Perdi os filhos…
–Tu não sabes que é com exércitos que se evita a guerra? Que é preciso haver exércitos – para evitar as guerras?! – E abrandando a voz, como quem revela um segredo de estado – O mundo está super-povoado, minha filha, super-povoado… – Não terminou.
Precisava de uma pausa. Pediu água, para desentupir os ventríloquos. Depois, num sacão, voltou a berrar:
– Voltas! Voltas para onde vieste!
Fizeram-na dar meia volta. A cor negra, nas costas do camuflado, apareceu aos olhos do in.
– Que é isto?! Provocações sobre provocações! Desandar! Marchar! Em frente!
O general estava possesso.
Tentou novamente passar sob a vedação, conforme pôde. Nem o sol abrandava, nem as estrelas paravam de cair para a queimarem mais.
O general mandou apontar os mísseis de cruzeiro. Mandou o ajudante-de-campo consultar os computadores que, atingidos ou não, não podiam deixar de trabalhar, e direccioná-los para a terra de ninguém:
– Ou corres, ou disparo sem aviso! Porque sou generoso.
“Correr – pensou ela.– Correr. Já não tenho peito, já não sinto os pés. Já não tenho motivos…”
Uma saraivada de pedras saltou-lhe ao lado.
– É só um aviso! – ouviu ela, no meio do eco da cascalhada. – Porque sou generoso!

vietnam warInfringiu as regras. Abrigou-se junto aos arbustos.

O boss negro, o grande executivo, mandou erguer os estandartes de aço:
– Aqui, não voltas a entrar – incendiou-lhe os ouvidos.
As cordas vocais rolando pelos seixos, pelos sulcos das enxurradas, ergueram-se, gritando:
– Quero os meus filhos! Quero os meus filhos! Restituam-me os filhos!
Mas o aço negro dos estandartes formava um mantelete férreo que espelhava o sol. Queimando-lhe os olhos.

halabja.

 © Myriam Jubilot de Carvalho

Conto Publicado na Revista da Sol XXI, 1993

Sobre as imagens:

1ª imagem, ver em: Sabra Shatila- 

http://www.alitravelstheworld.com/lebanon/sabra_shatila/sabra_shatila_3

2ª imagem: Vietnam war

http://www.prism.gatech.edu/~yzhu94/

3ª imagem: Halabja Poison Gas Massacre

http://www.kurdistanhouse.org/?p=178

NOTA:

Não se pense, por favor, que foi um divertimento a escolha destas fotos. Nem elas estão aqui como simples ilustração. São apenas um testemunho do horror que me causa a extrema crueldade de seres que se apresentam sob a forma humana.

Este conto foi escrito sob a revolta, o desgosto, e o sentimento de impotência causados pelas notícias da guerra no Líbano, perpetrada por Israel, e o bombardeamento a gás sobre as aldeias curdas.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 21 de Agosto de 2009

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O Brinde de Allah

* Contos — Myriam de Carvalho @ 5:17 pm

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O Brinde de Allah

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…Dizem eles que esta Conferência do Rio vai ser a última, a decisiva. Ou recuperam a Terra e refazem os maus efeitos de tanta imprudência, ou então…

…Volvo os olhos para o mausoléu. Continua à minha guarda. Não me canso de o contemplar – quanto mais o contemplo, mais o amo

…Que não deve ser admirado às horas rubras do calor, mas apenas sob os raios doces dos crepúsculos. Deixo-os falar – para mim é sempre sublimemente belo. Inscrevi a sua alvura marchetada entre duas linhas imaginárias, traçadas desde a extremidade da base quadrada até ao cimo da cúpula, formando um triângulo rectângulo – esse triângulo que Platão dizia ser o mais perfeito. É a minha vida – e essa forma que oculta é a forma das piras funerárias, a forma do fogo…

Mas visto do Jamuna, dir-se-ia navegar.

Assentei a construção sobre um quadrado. Assim, é o Céu dentro da Terra – representa um paraíso.

Cercado, todavia. Um paraíso cercado.

Obviamente. Sempre assim pensei. Aliás, são coisas que não se pensam – ou se é, ou não se é. Fazem parte de nós. Os paraísos devem ser indesvendáveis. O fausto deve constituir uma miragem. Os simples precisam de nós como referência – para sonharem. Para reverenciarem. Para adularem e invejarem. Para odiarem, em suma, para se voltarem uns contra os outros, para reciprocamente se destruírem. A Diferença tem sido um grande motor da História.

Logo cedo, porém, as riquezas do mausoléu começaram a ser pilhadas. Foi meu próprio filho, o usurpador que me destronou, quem abriu a via da delapidação. Arrebatou e mandou fundir as grades de ouro que rodeavam o túmulo de Arjumand Banu Begum.

Daí para cá, apesar de roubado e diariamente violado, enfim, já não me permito inquietar-me. Todos esses violadores são de um modo ou outro, admiradores. Uns, porque me invejam o antigo poderio. Outros, porque se extasiam perante esse ideal do grande amor. Quem não quereria ser tão amado, ou amada, que assim fosse perpetuado até ao fim dos séculos?

Poucos sabem – e sempre assim pensei, aliás, há coisas que nem se pensam – ou se é, ou não se é… – sou irmão dos faraós, dos reis-sol, dos furers, dos estalines. Dos grandes fazedores de impérios – os guias e os folhetos turísticos omitem isso.

Invejam-me o antigo esplendor. Hã!, queriam deslumbrar-se perante tanta magnificência – como? Já se viu tamanha maravilha caída do céu? Ninguém estima quantas maldições nos custa um império.

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…Andam aflitos porque é preciso salvar a Terra. Isso diz-me respeito. Edifiquei o mausoléu para a eternidade. Mumtaz Mahal, minha eleita, a Eleita Do Meu Palácio, não pode morrer. Não que nossos ossos habitem ainda a cripta obscura e solitária. Mas porque no meio do ódio e da dor que espalhei, Arjumand Banu, a eleita dentre as minhas esposas, foi um brinde de Allah, ou, usando uma linguagem mais universal, um brinde de Deus…

O edifício – acabei de vo-lo recordar – foi planeado com aquela base quadrada, a representar a Terra. Os minaretes, os pilares que a sustentam. A sua cúpula, o globo do Céu.

Só agora compreendo como é muito mais que isso. O mausoléu – dizem que o mais belo monumento que existe na Terra – é a imagem perfeita da nossa condição.

A vida faz-se à custa da vida. Ou antes, da morte. Sempre assim pensei – ou antes, está escrito.

Matei o meu irmão, e metade da minha família restituí ao pó: consegui o império.

Sobre saques, traições e sangue.

Mas Allah – ou seja, Deus, em sua imensa e misteriosa sabedoria, depôs este brinde na minha vida. Um amor magnífico. E a sua memória.

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…Dizem, alguns dentre esses que se encontram no Rio, que ainda há problemas mais urgentes a resolver do que a conservação do Planeta! Ah, que há que erradicar a pobreza! Erradicar  pobreza – hi, hi, como são cínicos… como me superam!

Fingem ignorar que essa forma de energia auto-destrutiva que é a explosão demográfica não passa de metástases do cancro. Nos últimos trinta anos, a população de Agra subiu à razão de 173%! As indústrias que se desenvolvem na cidade e ao seu redor não se destinam apenas a apascentar essa gente, mas sobretudo a alimentar o cancro, ah, ah, ah, a Diferença!

Pensarão, talvez, vocês todos, que Akbar, o Máximo, foi um visionário quando quis fundir hindus, muçulmanos e cristãos?! Através do irenikon, essa artificiosa síntese dos três credos? Ah, todos os caminhos vão dar a Roma, quer dizer, servem para consolidar impérios, para glorificar os senhores.

Erradicar a pobreza. Ah, ah, conheço-as bem, as lágrimas dos crocodilos. Nos finais do vosso século XX! Quando se assiste a uma autêntica invasão de

deserdados na Europa do Sul. Ah, ah, ah. Enquanto puderam roubar, colonizar – como se dizia –, desenvolveram-se! Agora, que tal como o mel, atraem as moscas, sentem-se invadidos. E temem a recessão.

…A verdade é que até o meu mausoléu está a acabar. A corromper-se.

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Allah – que o mesmo é dizer, nas vossas línguas, Deus – concedeu-me um outro brinde. O amor das belas-artes. Todos os tiranos amam as artes – e isso, já vocês sabem. O que não sabem, é que a Beleza eleva-nos do poço, faz-nos esquecer a lama, ajuda-nos a respirar.

.A Grande Esfinge, o Parténon, estão a morrer. O meu Taj Mahal está a morrer. Os minaretes que simbolicamente seguravam o Céu, suportam agora este facto real, concreto – as toneladas de cinzas expelidas pelas chaminés industriais de Agra e Mathura. O meu mausoléu, como actual cartaz turístico, atrai proventos à cidade. Não fossem, no entanto, as chaminés poluentes, quem manteria, ainda que pelos mínimos, o milhão de habitantes de Agra e Mathura?

Entretanto, todos o sabemos. No dia em que se desmoronar, no dia em que o meu Taj Mahal cair, o túmulo negro que não cheguei a construir para mim, erguer-se-á para todos vós.

…Daqui, de dentro da minha cripta obscura, contemplo o mausoléu. E o mundo, lá ao longe. Na verdade, parece-me que o tempo dos impérios está a esgotar-se. É esta peste, esta nova peste que grassa por todo o Planeta. Há quanto tempo já começaram a fazer-se ouvir as sirenes de alarme?!

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Até aqui, compreendo-o agora, a vida tem vindo a alimentar-se da vida. Isto é, da morte. Porque o homem é esse irracional total que para assumir impunemente os comportamentos do predador, se acoberta do direito divino. Como Akbar, como eu próprio

…Até que aqui nos encontramos todos nós, vocês e eu, neste tempo das realidades irremediáveis.

Penso, inevitavelmente, no grande sonho de Akbar, meu avô. Começo a desconfiar – talvez ele não tenha sido assim tão pragmático, quem sabe? O irenikon, esse ideal universalista – como eu me ria, nesse tempo!

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Talvez fosse esse o grande brinde de Allah, Deus – e de todos os Deuses.

…Eu quero, eu quero absolutamente que me salvem o mausoléu!

…E se acabar, esse grande reino da Diferença, o que ficará aos homens? Quem voltará a juntar fortunas de fábula para elevar pirâmides, alhambras, muralhas…

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…Pôr cobro, enfim, àquilo que tem sido o grande motor da História…

…Quantas vezes me ri dos filósofos de meu avô e desse famoso irenikon.

Presentemente, ouvindo-vos falar de pacifismo, recordo as velhas querelas. Contra a minha vontade, contra a minha lógica, …e não consigo impedir-me de pensar nisto. …Quem sabe? Esse antigo sonho não poderá ser o grande, o autêntico, o verdadeiro brinde de Allah? Um pacifismo? Universalista?

Ainda se encontra ao alcance de Vocês todos. Quem sabe se à sua sombra, por uma razão ou outra, o grande predador não se volverá humano… um pouquinho só… Só um nico de humanidade, e talvez já chegasse para evitar o tempo calamitoso que se aproxima…

…Observo as minhas paredes, os meus estuques. Cada dia mais enegrecidos… As decorações murais, desagregando-se, caindo. As águas serenas do sereno Jamuna, progressivamente, a subirem o seu nível.

…Tudo me obriga a reconhecer que são urgentes novos paraísos.

Porém, e ainda que a conrta-gosto, paraísos sem muros, sem portões.

…Nessa altura, sim, a Sabedoria divina – o fruto proibido – estará ao alcance da mão humana.

Os caminhos que há tanto tempo vimos traçando, não passam de aparências, de desvios. É forçoso reconhê-lo. Lia mal quem lia “Está escrito”!

Pois isto é a condição humana. Só depois do erro cometido o reconhecemos, só depois da morte encontramos a verdade… Só depois de auto-destruídos, sabemos que poderíamos tê-lo evitado…

…Tudo isto agora me faz sorrir amargamente… Não se poderá dizer que eu não tenha cingido o profundo sentido desse velho ideal, o irenikon, sem uns séculos de atraso.

É isso, o grande, o temível Predador cultiva a Beleza – endeuza-se aos olhos do vulgo – mas guarda o coração fechado à Sabedoria. A Beleza, tal como o Poder, ou a Morte, só por si, não chegam para nos guindar à Luz…

…Mas Vocês, ultrapassem-se! Ultrapassem-se! Durante muito tempo, no meu desespero e impotência, pensei em abanar-vos, e gritar-vos – matem-se uns aos outros, esterilizem-se, suicidem-se!

Mas agora sei que já não poderá ser essa a via. Vão ter que distribuir – equitativamente, a Cultura e a Riqueza. Vão ter que abater as fronteiras erguidas pelo cinismo daquilo a que chamam a colaboração entre o Norte e o Sul!

…E salvem-me o Taj Mahal. O símbolo da nossa condição – o símbolo da condição humana.

Talvez, como dizia o Poeta, o pólen da pétala da rosa possa conduzir-nos, enfim, ao coração do vendedor de perfumes

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Shah Jahen

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A propósito da Conferência do Rio, 1993

Conto que aconteceu após ouvir no rádio o Presidente Georges Bush (pai), no discurso inaugural de uma conferência de empresários americanos,

a coincidir com os preparativos para a Conferência do Rio, de 1993:

Dizia ele:

“Que nunca a ecologia leve a melhor sobre os interesses económicos”

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© Myriam Jubilot de Carvalho, 1993

Conto publicado no Suplemento Literário

do jornal Correio Beirão, 1993

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

em 17 de Agosto de 2009

Retocado em 2 de Maio de 2015

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Costa

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 3:58 pm

Esta cidade sem a Costa, seria um ponto

morto num mapa bafiento e roto.

A Costa é esta arca de tesouro –

que partilho com toda a gente nas horas generosas

do sol.

Passeio-me pela praia, nos meus passeios de inverno,

as gotículas de mar trazidas pelo vento

áspero da areia levantada. Embaciam-me os óculos,

refrescam-me as ideias, renasce-me a fonte do amor.

No verão, quando os filhos

vêm passar aqueles escassos dias comigo,

renasce-me a fonte da paz interior.

A Costa é o abrigo dos meus olhos onde

consciente me perco no imenso mar de azul e de luz.

Restitui-me as raízes que trago do Sul.

E eu agradeço-lhe, com tão pobres versos

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Unknown

 

© Myriam Jubilot de Carvalho – Inédito

Janº-2008

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FOTOS retiradas do Google Images, com a devida vénia.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 12 de Agosto de 2009

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