Arqueologia

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:59 pm

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Arqueologia

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Somos o resto de uma civilização perdida

Rastejamos no solo à procura de restos,

indícios da sabedoria de ouro de antigos sábios

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Abrimos buracos nas grutas ocultas

Escavamos na terra preciosa os ossos de antanho

Nas pedras eloquentes, nos papiros amarelecidos

procuramos registos da vida passada

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Enquanto sem futuro nos destruímos

A Terra nos deu

A Terra nos engole. E de vez em quando

renascemos, e rastejamos…

Rastejamos, sempre

até nos perdermos novamente

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Quase à beira da morosa

conquista de uma sabedoria

Quase a ponto

de aceitarmos a nossa origem remota

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E quase a ponto de nova destruição

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© Myriam Jubilot de Carvalho

18 de Janeiro de 2018

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Junho de 2019, pelas 16h

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Dois livros para ler a par e passo

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 7:29 pm

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Sugestão de leitura:

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Na altura em que publiquei aqui o post sobre Notre-Dame, esqueci-me de anotar este pormenor:

Li, em paralelo, ou talvez mais explicitamente, a par e passo, os dois livros citados nesse post, Os Templários, e As Cruzadas vistas pelos Árabes.

Foi um exercício muito proveitoso. Pois a informação fornecida por cada um dos autores, é obviamente coincidente.

No entanto, a narrativa de Amin Maalouf  amplia a nossa perspectiva crítica, pois transmite-nos os sentimentos dos povos do Próximo Oriente que se viram sem mais nem menos invadidos pelos Europeus.

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Referências:

Os Templários, de Piers Paul Read; ed. Imago, Rio de Janeiro, 2001;

As Cruzadas vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf; ed DIFEL, 10ª ed, 2001

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 5 de Maio de 2014, pelas 20h 25m

 

Dia das Mães, 5 de Maio de 2019

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:51 pm

 

Minha Mãe

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Fala comigo, Deusa minha Mãe – Grande Mãe Universal.

Tens-me mantido acordada, tens-me dado a mão amada,

Tens sido a minha Guia, a minha mão-de-fada,

Só tu me livraste da erosão total.

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Fala comigo, Deusa minha Mãe, Rainha do Universo,

Inspiração das grandes obras – dos feitos dos grandes homens

no tempo em que as mulheres não tinham direito ao Verbo,

E vem dançar comigo nas raízes fecundas dos meus versos.

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Somos a grande Música espalhada pelo Vento,

as grandes cores de afrescos e painéis

e os Davides contemplando o seu próprio Pensamento.

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Somos a voz frenética das ondas, dos pinhais vagabundos na lonjura,

o chilrar das aves apelando por parceiros de ventura,

os sinos que dobram ou repicam nas torres aladas do Palácio da Grande Aventura.

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Como viver sem ti se a noite vai longa e tenebrosa,

se os deveres são duros e penosos?

Como viver longe de ti,

ó minha grande Mãe, amada e única Mãe Gloriosa?

Chamaram-te Ísis – Deméter –

Sophia –

Virgem Maria !

Mas eu só te sei um nome –

Poesia

Myriam Jubilot de Carvalho

Poema final de “E no fim era a Poesia”, pág 81

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 5 de Maio de 2019, pelas 13h 50m

 

 

 

Onde está o Sul do Tejo?

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 10:58 am

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Onde está o Sul do Tejo?
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Ainda acontece. Quando por vezes tenho que dizer que sou algarvia, alguém reage e dá um salto na cadeira, abre uma gargalhada inoportuna, e exclama com uma expressão que não sei exactamente definir, mas que não sinto agradável:
– Ah! Sua moura!
– Com que então, és moura?!
Moura ou não, nasci no Sul, e nisso tenho grande prazer.
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Isto vem a propósito da reportagem que eu estava a ouvir na Antena 2, sobre o concerto de abertura de Os Dias da Música, no Centro Cultural de Belém.
Aos microfones da Antena 2, anunciava-se que iam actuar coros infantis e juvenis de Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro. E claro, o comentário surgiu, neste teor:
– É uma participação a nível nacional!
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Eu gostaria de ter podido perguntar:
-Como?! Lisboa-Porto-Coimbra-e Aveiro – Isso diz respeito ao conjunto nacional – Ou será apenas uma fracção não representativa do país?!
E o Interior?
E o Sul – todo o Sul?!
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Como este caso não é único, muitas vezes me pergunto: “Haverá, neste olvido, alguma responsabilidade das pessoas do Sul?! Serão os Algarvios que não se fazem lembrar, que se deixam ficar no seu canto, à espera que figos e amêndoas caiam das árvores?!”
Ou será ainda o velho sentimento discriminatório de que o Sul foi conquistado pelo Norte? Mas isso aconteceu no séc XIII, vai para 800 anos! Ainda viveremos nós sob o peso das ondas de choque da Reconquista?
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Segundo julgo saber, o Sul continuou com a designação de “Reino dos Algarves” apenas porque os reis portugueses achavam pomposo contar com esse título na arreata de títulos que ostentavam.
Ainda os nossos últimos reis ostentavam a lista de títulos que rezava: “Pela Graça de Deus, Rei (ou Rainha) de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor(a) da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.”
Nessa enfiada de títulos, tinha tanto significado mencionar o Reino dos Algarves como o etc final!
Ou seja – A frase-feita de que “Portugal é Lisboa e o resto é conversa” continua a ter peso na expressão oficial nacional.

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Nós, os Algarvios, mouros ou não, temos muito orgulho na nossa herança ancestral feita da fusão de tantas culturas e religiões, sobretudo mediterrânicas e do Próximo Oriente, que nesta região deixaram a sua marca:

Aos antigos Iberos (provavelmente oriundos do Norte de África) que se fixaram mormente na zona oriental da Península, vieram juntar-se os Celtas, oriundos da Europa do Norte e Central. Estes fixaram-se sobretudo no Ocidente peninsular. Esses grupos viveram uma maior fusão na zona central da Península.

Ao longo dos séculos, muitos outros povos demandaram a Península, e mais ou menos pacificamente, aqui se fundiram com os povos já aqui fixados:

Fenícios (Palestina – Próximo Oriente). Ao tempo da chegada dos Fenícios já prosperava no Sul peninsular, o Reino de Tartessos, com cultura própria e já com domínio da Escrita – a ainda não decifrada Escrita do Sudoeste. Gregos (sul da Europa Oriental), Cartagineses (meio Fenícios meio Berberes – Norte de África). Romanos. Judeus (meio Egípcios meio Fenícios ou Palestinos). Vândalos e Suevos (Norte da Europa). Alanos (Norte do Irão, Planalto do Pamir). Visigodos (Norte da Europa).    Bizantinos (sul da Europa Oriental e Próximo Oriente, em parte uma evolução da Cultura Grega). Berberes (Nordeste de África, mais ou menos Arabizados). Cultura Árabe, que absorveu marcas que vão da Síria ao Iémen, e ao Irão.

A tudo isto, veio sobrepor-se o legado de uma fracção esquecida da nossa população – a herança genética e cultural dos Escravos Africanos, vindos de diferentes paragens do imenso continente africano, e que igualmente ao longo de vários séculos, se fundiram com a população que os aprisionava, explorava e oprimia.

Resta acrescentar que as belas Lendas de Mouras Encantadas são muito provavelmente reminiscências da Cultura Celta, com o seu culto da Natureza.

Posto isto, como não nos orgulharmos da riqueza compósita do nosso ADN físico e cultural?

 

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Aqui no blogue, em 27 de Abril de 2019

No FB, na noite anterior.

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Notre-Dame

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:30 am

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Notre-Dame

Assiste-se a um lamento tão profundo pela perda de Notre-Dame e pelos seus 850 anos de História, que sinto que devo postar este apontamento. Talvez possa recordar alguns factos a quem ande esquecido, ou trazer algum esclarecimento a quem os ignore.

Em primeiro lugar, a Notre-Dame que todos conhecemos, é o fruto do restauro a que se procedeu no século XIX.

Viollet-le-Duc foi o arquitecto desse profundo restauro. Inclusive, foi ele o autor do famoso pináculo de Notre-Dame. Ou seja, a “flèche” que tanto nos deslumbrava, tinha mais ou menos um século e meio de história, não mais. Em segundo lugar, recordo este detalhe que muita gente ignora, e que diz respeito ao surgimento do Gótico, esse estilo arquitectónico que é um dos grandes orgulhos dos Europeus.

Seria bom perguntarmo-nos como nasceu o Gótico.

Os príncipes europeus da Idade Média digladiavam-se entre si. O que muito preocupou o papa Urbano II (1035-1099).

Cerca de 1095, o imperador de Bizâncio, Alexios I Komnenos, pediu ajuda ao Papa pois as suas fronteiras estavam sob ataque dos Turcos Seldjúcidas.

Urbano II achou que uma maneira de livrar os seus súbditos de tanta belicosidade, seria endereçá-la para outras paragens. Esse apelo de Alexios I veio dar-lhe a oportunidade. Urbano II incitou a Cristandade ocidental a ir combater os Muçulmanos tendo em vista a libertação da Terra Santa.

A pregação de Urbano II deu origem à I Cruzada (1095-1099), e às muitas outras que se lhe seguiram.

Foi esse desvio para outras paragens, do estado de guerra em que vivia a Europa. que deu origem ao chamado Renascimento do século XII: No século XII acontece uma notável renovação económica e cultural. É nesse “renascimento” que surge o estilo Gótico: as cidades competiam entre si, a ver qual delas ergueria a catedral mais alta e sumptuosa. As catedrais góticas não são apenas o testemunho de fé de que por vezes se fala. São sobretudo um testemunho de poder.

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Claro que presenciar este incêndio foi um grande choque. Notre-Dame foi justamente classificada como Património da Humanidade, um dos expoentes da Cultura Europeia. Também me vieram as lágrimas aos olhos ao ver aquele espectáculo infernal.

Mas as televisões deram grande relevo a aspectos que eram fruto da ignorância. E fiquei sem saber se era a ignorância ao serviço da propaganda, ou se era a propaganda a servir-se da ignorância. O que vai dar praticamente ao mesmo. E depois, há este olhar para o umbigo por parte da cultura europeia. E isso incomoda-me. Não se vê espírito crítico. Há quem diga que os erros do Passado já não têm remédio, e então é deixá-los para trás. Mas não pode, ou não deve ser assim. Essa auto-complacência leva à perpetuação dos mesmo comportamentos – a tão apregoada grandeza da cultura europeia tem sido feita à custa de outras culturas- A cultura (economia, prestígio, riqueza…) europeia é essencialmente predatória. Na Idade Média como no século XIX, por exemplo…

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Não se pense, porém, que não aprecio a cultura francesa. Claro que aprecio. Aliás, formei-me em Românicas. Mas gosto de ver os dois lados da Realidade, ou seja, os ídolos têm pés de barro:

Tal como foi recordado há poucos dias no canal TV5 Monde, a pena de morte só foi abolida em França em 1981.

Ou então recordemos que as mulheres francesas só obtiveram direito de voto após a II guerra mundial.

Não esquecendo que uma das receitas da França vem da indústria de armamento.

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Referências:

Os Templários , de Piers Paul Read; ed. Imago, Rio de Janeiro, 2001;

As Cruzadas vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf; ed DIFEL, 10ª ed, 2001

« Ces ventes d’armes sont-elles légales ? »

https://www.la-croix.com/Monde/ventes-darmes-sont-elles-legales-2018-03-20-1200922422

ENTRETIEN. Hélène Legeay, Responsable Maghreb-Moyen Orient à l’Action des chrétiens pour l’abolition de la torture (ACAT).

  • Recueilli par Laurent Larcher,
  • le 20/03/2018

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Nota:

Esta crónica foi publicada no jornal de Moçambique onde costumo colaborar:

O Autarca – Jornal Independente, Quarta-feira – 24/04/19, Edição nº 3669 – Página 06/08

 

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 18 de Abril de 2019, pelas 12h 30m

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Três livros que se completam mutuamente

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 3:10 pm

 

A Revolução Cultural chinesa e

os tempos pós-revolucionários

 

A Revolução Cultural chinesa foi lançada por Mao Tsé Tung em 1966, que através dela, pensou consolidar o seu poder apoiando-se na juventude do seu país.                      Conheço alguns testemunhos interessantíssimos sobre esse período:

Começo pelo relato auto-biográfico da pianista ZHU XIAO-MEI:

“O RIO E O SEU SEGREDO

Dos campos de Mao a Johann Sebastian Bach: o destino de uma mulher excepcional”

Zhu Xiao-Mei
Guerra e Paz Editores, 2007

Colecção A Ferro e Fogo.

Procurei na Net, a confirmação de que este livro corresponderia à realidade. Pois poderia tratar-se de uma ficção…

O livro é de facto um relato sobre a realidade:

A biografia, obviamente abreviada, desta pianista está na Wikipedia. Aí se conta que Zhu Xiao-Mei, nascida em 1949, actualmente vive em Paris, onde é professora no Conservatório.
Há também vários vídeos com gravações suas no YouTube, pois Zhu Xiao-Mei é especialista em Bach.

Zhu Xiao-Mei conta-nos como a sua vida de apaixonada estudante de piano se viu interrompida pelo turbilhão da Revolução Cultural. Conta-nos como as relações pessoais se tornaram impossíveis pela desconfiança e pelo medo, pois as pessoas eram levadas a denunciarem-se umas às outras por crimes políticos que nem sequer tinham cometido. Conta-nos que conseguiu fugir para os EEUU e como aos poucos foi retomando os seus estudos de piano, mercê da sua grande força-de-vontade e persistência.

O segundo testemunho é-nos dado através do romance:

À Espera 

Ha Jin
edições Gradiva, 2ª edição, 2000

O autor deste segundo título é o escritor chinês, romancista, contista e poeta, radicado nos EEUU, Ha Jin.
Ha Jin, nascido em 1956, conhece bem o seu país natal, e a sua História recente, pois na sua juventude, tomou parte na Revolução Cultural Chinesa. No entanto, quando ocorreu a tragédia de Tianannmen, em 1989, ele encontrava-se a estudar nos EEUU, com uma bolsa de estudos. Ha Jin não regressou à China. Optou por escrever em Inglês.
“À Espera” é uma história de amor enquadrada nos tempos que se seguem à Revolução Cultural Chinesa, e acompanha a abertura da política económica chinesa para um estilo de economia com maior margem para a iniciativa privada.
A história mostra também como a vida privada dos cidadãos chineses era controlada pelo Partido, dentro de um moralismo muito estrito.
O enredo é interessante, e conforme se aconselha para a técnica narrativa do “conto”, tem um final inesperado.

O terceiro testemunho dá-nos a conhecer a tragédia de Tiananmen, em 1989:

O Verão da Traição

Hong Ying

Edição Livros do Brasil

1ª edição, 2001

Hong Ying é uma poetisa e romancista chinesa, nascida em 1962. Vive em Londres, onde se radicou a partir de 1992.

“O Verão da Traição” é um romance cuja personagem principal é a poetisa Lin Ying. A acção passa-se nos dias imediatos aos protestos de Tiananmen, os quais a ditadura chinesa da época denominou apenas de “distúrbio”.

Nesta obra os aspectos políticos e literários estão interligados:

Ao nível da vida pessoal da protagonista, uma poetisa oriunda de alguma montanha do interior da imensa China, vemos todos os constrangimentos impostos pela censura moralista e de costumes exercida pelos rigores de extremo controlo do Partido Comunista Chinês. Ao nível político, há todos os constrangimentos determinados pela recuperação da situação por parte das autoridades dessa época. Censura, perseguições, acusações, denúncias, interrogatórios, confissões arrancadas sob tortura. Suicídios. Os intelectuais vêem-se isolados e ostracizados.

Mas há ainda outros níveis de leitura. As personagens discutem sobre as funções da Literatura, nomeadamente sobre Poesia; discutem sobre a Literatura Experimental, sobre a Liberdade, nomeadamente a liberdade sexual.

A autora desta obra é uma poetisa. Daí, que o aspecto mais importante desta obra seja o tratamento da linguagem, que é sempre poética. Tanto no ritmo, como na expressão. E o facto de a protagonista ser poetisa confere a esta pequena história um valor simbólico. Quando no final, os artistas – poetas, filósofos, jornalistas, músicos – se envolvem na orgia, Lin Ying desnuda-se. Ou seja, a Poesia representa e dá voz à alma real de um povo. Quando Lin Ying, a poetisa oriunda da montanha distante, copula com o desconhecido, a autora está a sugerir que a salvação da China está na sua alma ancestral.

 Conclusão 

Estas três obras descrevem-nos uma China recente – desde meados dos anos 60 até ao presente.

Mais uma vez se comprova como a Literatura e a História são irmãs gémeas, caminhando de mãos dadas – como eu gosto de dizer. A História descreve os factos, mas a Literatura fala-nos dos sentimentos, dos sonhos, dos feitos, e dos revezes – de quem viveu os factos descritos pala História.

Lembro-me de que o Professor Mário de Albuquerque, professor de História Medieval nos anos ’60, década em que tirei o curso na Faculdade de Letras de Lisboa, citava um professor de Direito, francês, que no início de cada ano lectivo aconselhava os seus alunos a lerem Poesia “antes de estudarem as leis” – para terem uma noção mais profunda e real do que são as motivações das pessoas que eles um dia teriam que julgar ou defender.

Actualmente os nossos programas reduzem os estudos de Humanidades… Um erro tremendo, que se pagará num futuro não muito distante. Aliás, esse futuro já é presente e já está mostrando as suas consequências – cabeças de ferro, corações fechados a cadeado, e olhos de cifrões. Ou então, talvez tenha sido sempre assim, e quem o denuncia terá sido sempre marginalizado… O que sei é que, se por um lado o ser humano sempre teve o seu lado “mau”, por outro lado, a sua perversidade sempre foi equilibrada pelas pessoas de sensibilidade. E acredito religiosamente que a sensibilidade educa-se, através do estudo e da prática das Artes! E é este equilíbrio que nunca se deveria perder…

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

 

 

 

Da janela do meu quarto

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 5:24 pm

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Da janela do meu quarto

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A janela deixa-se invadir pelo casario e ruas arborizadas. Na sombra das nuvens, a manhã acordou-me, cinzenta, na minha frente.                                                            Não se nota que é Primavera, mas ela chegou no calendário. Hoje é domingo, e a meteorologia promete chuva.                                                                                      Queria sair. Sair de casa. Mas estás longe e não há como ir ao teu encontro.

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O meu apartamento fica num andar alto. Visto a partir desta perspectiva, o casario tem a sua beleza. Primeiro, os telhados vermelhos das vivendas do bairro antigo a demarcarem a rua alcatroada. Atrás, os prédios altos na sua monotonia acinzentada; atrás destes, os prédios vermelhos. Um pouco mais ao fundo, uma paleta de amarelos. De onde em onde, sobressaem as copas das árvores. Algumas já renovaram a folhagem que fresca e transparente se baloiça ao ritmo da aragem.

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Ainda é cedo, mas os carros começam a invadir o espaço com os seus ruídos monocórdicos.                                                                                                            Acho que são horas do meu chá matinal. Talvez a seguir regresse um pouco de sono.

© Myriam Jubilot de Carvalho

Inédito, 6 de Abril de 2019

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 11 de Abril de 2019, pelas 18h 25m

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AMOS OZ

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:52 pm

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Morreu Amos Oz

Não acredito…
Morreu Amos Oz…
Foi em 2018, no dia 28 de Dezembro. Mas eu só soube agora…
O autor de um dos grandes livros da minha vida: “O Mesmo Mar” (1).
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Conforme é dito no artigo abaixo citado:
Nasceu em 1939.
“De seu verdadeiro nome Amos Klausner – ao apelido do pai, preferiu Oz, que significa “força” ou “coragem”” …
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“Recebi prémios suficientes”, respondeu, segundo o jornal israelita Haaretz, numa das vezes em que lhe perguntaram o que sentia sobre o facto de ainda não lhe ter sido atribuído o Nobel. “Se deixar este mundo sem nunca ter recebido o Nobel, ficarei bem. Vou contar-lhe um segredo: os prémios literários são uma coisa estranha. Eu escrevo livros tal como bebo água ou respiro. Eu não posso deixar de beber água, de respirar nem de escrever. Depois, as pessoas vêm e dizem: ‘Respiras lindamente’ ou ‘Bebes água tão bem que vamos dar-te um prémio.’ Escreveria os mesmos livros, ainda que tivesse de pagar multa por cada um deles – e há pessoas que gostavam de me ver pagá-la, eu sei disso.”
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Ele era um pacifista. Isso é sabido. Foi o fundador do movimento “Paz Agora”. No entanto, limitou-se a condenar apenas a ocupação de Faixa de Gaza e da chamada West Bank; nunca condenou a ocupação inicial do território Palestiniano.
Conforme é referido no artigo abaixo citado: apesar de tudo, o seu pacifismo …”lhe valeu muitas vezes o epíteto de traidor. “Tendo a olhar isso como uma honra. Tem acontecido a muito boa gente ao longo da História. Quando me chamam traidor, sei que estou em excelente companhia”, “…
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A sua humanidade: e se eu fosse o outro?
… “Acho que uma pessoa curiosa tem um pouco mais de moral do que um não-curioso, porque por vezes coloca-se na pele do outro. Penso ainda que um curioso é também um melhor amante. Até a minha abordagem à questão palestiniana, por exemplo, nasceu da curiosidade. Não sou um especialista em Médio Oriente, nem um historiador ou um estratego. Simplesmente perguntei a mim mesmo, desde muito novo, como seria se eu fosse um deles. É o que faço – levanto-me de manhã e pergunto-me: E se? É assim que vivo e é assim que escrevo.” 

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VER artigo no PÚBLICO:

Título: Morreu o escritor Amos Oz, uma das principais vozes israelitas do campo da paz

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(1)- O Mesmo Mar, de Amos Oz

Editores ASA, 1ª edição – 2003

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 9 de Abril, por volta da 1h

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Dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher, em 2019

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 2:31 pm

Mulheres quase desconhecidas, e certamente esquecidas
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A origem da expressão “banho-Maria”
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Maria foi uma alquimista judia, do século III aC. Inventou várias técnicas e utensílios de laboratório.
Uma dessas técnicas passou à posteridade sob a designação de “Balneum Mariae”.
A cozedura em “banho-maria” foi muito utilizada nas experiências químicas, ao longo dos tempos.
No entanto, foi muito vulgarizada por Albertus Magnus, no século XIII, e muita gente pensou que teria sido ele o seu inventor…

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Hipátia de Alexandria
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Hypatia foi grande matemática e astrónoma, bem como filósofa. Nasceu cerca de 355, e morreu em 415, em Alexandria.
A polaca Maria Dzielska estudou a história e o fim trágico de Hypatia.
Hypatia viveu num tempo perturbado. Foi brilhante no seu ensino das Matemáticas e Astronomia.
A sua formação filosófica inscreve-se no Neoplatonismo.
Mas escandalizou o ambiente do cristianismo nascente.
Foi assassinada.
O seu nome e memória tornaram-se símbolos do Feminismo.
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Referências:

Sobre a alquimista Maria, citei de memória.

Sobre Hypatia de Alexandria, há o livrinho da relógio de Água ou aqui na Net, a Enciclopédia Britânica:

Hipátia de Alexandria, de Maria Dzielska, Relógio de Água, 2009

https://www.britannica.com/biography/Hypatia

Publicado por 

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 8 de Março de 2019, pelas 14h 24m

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A Vida não é lugar

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:39 pm

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Penso muito nas teses de Marc Augé sobre o tema do “Não-Lugar”.

Tomei contacto com elas a partir do filme The Terminal (Terminal de aeroporto) com Tom Hanks e Catherine Zeta-Jones. Guião por Sacha Gervasi  e Jeff Nathanson, baseado numa história de Andrew Niccol e Gervasi. Realização de Steven Spielberg. 2004.

Depois disso, outras leituras vierem à minha memória, e outros filmes se lhes juntaram.

Cada homem é uma ilha” – Buda

“El Gran Zoo” – Nicolás Guillén, 1967.

The Magic of Belle Isle (Um Lugar Especial) com Morgan Freeman e Virginia Madsen. Guião de Guy Thomas. Realização de Rob Reiner. 2012. No Canal Hollywood, dia 5 de Março de 2019, às 9h 50m.

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A Vida não é lugar

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A vida não é lugar.

Labirinto às escuras, onde

entramos ao nascer.

E porque havemos de morrer,

nunca se torna nosso.

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Mas não é um sítio neutro.

Gafaria lazarenta, onde

a massa cinzenta opera

maravilhas. Serão boas? Umas, poucas…

…muitas, não… A céu-aberto.

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Um não-lugar de penosa travessia,

um frio deserto… Onde

cada qual é uma ilha.

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Mas quando encontro o teu sorriso

é então que me liberto –

Ergo o meu espírito,

e o céu distante fica perto.

Entro em casa,

abro as janelas.

E quanto mais ganhamos asas

mais acordes ganhas no meu voo.

Viramos costas às cancelas

das estreitas capelas,

e dos zoos.

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Já não é um não-lugar – o supermercado

universal, o centro comercial onde

a honra está à venda e tudo

pode ser comprado.

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É a casa do Amor,

onde sabe bem ficar

© Myriam Jubilot de Carvalho

6 de Março de 2019

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Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 7 de Março de 2019, pelas 14h 40m

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