Um poema de Josefa Lima

Antologia — Myriam de Carvalho @ 11:57 pm

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Na rota das gaivotas

A excelente poetisa Josefa Lima

– algarvia do Sotavento, tal como eu –

transcreveu o para o FB – em 10 de Fevereiro de 2017 –

este seu grande poema que,

com seu conhecimento,

transcrevo e comento:

Na rota das gaivotas 

Na rota das gaivotas há linhas cruzadas

nos voos bisados da proa à popa
Há um frémito incessante
Há gritos estridentes
no lançar e recolher das redes…
são homens são aves
unidos no parto do mar esventrado
cegos de espuma e de sal

longa é a espera…

dobram-se corpos preces promessas
e a água ensopa o coração das aves
e escorre das penas dos homens

num instante tudo muda
e pinta-se o mar de luar
mergulham gaivotas a pique
trazendo no bico a fartura…
– quanta exúvia cintila
no rasto da traineira –

morre por fim a angústia à beira-mar
e no olhar dos homens e das aves
o alvorecer do retorno
e a paz da saciedade

– na praia a lota a repartir
pelas bocas esfaimadas
de quantas marés fracassadas

Josefa Lima, in “Na Rota das Gaivotas”

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Comentário ao poema

“Na Rota das Gaivotas”

de Josefa Lima

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Primeiro que tudo, este poema tem o fascínio de pôr em relevo o movimento das gaivotas em volta das traineiras que regressam cheias de peixe, um espectáculo que sempre me deslumbrou! Nesse aspecto, é muito belo, descritivo e sugestivo.

Estamos perante um poema muito rico, pois a sua linguagem é complexa, fundindo numa só realidade a vivência diária das gaivotas e a dos pescadores. Assim, sem deixar de ser Poesia, é um poema narrativo: tem cenário – o mar; tem personagens – os pescadores e as gaivotas; tem acção – a pesca ou se preferirmos, a caçada, tanto por parte dos homens como por parte das gaivotas; e tem o tempo da acção – um dia de pesca no mar. Ainda da estrutura da narrativa, identificamos – quatro momentos muito bem demarcados:

Num 1º momento, formado pelas três estrofes iniciais (sendo que a segunda é apenas composta por um único verso):
Há um ritmo emocional “em crescendo” – é a caça, a pescaria, tanto por parte dos homens como por parte das gaivotas.

No 2º momento, a quarta estrofe, o ritmo empolgante do momento anterior é interrompido pela chegada da noite e do luar. Mas a caçada continua.

No 3º momento, há o apaziguamento que vem da saciedade – ou da esperança de a ver garantida. A traineira (que nunca é mencionada, mas sem a qual os homens não poderiam estar no mar) chega “à beira-mar” e temos “na praia a lota”.

No 4º momento, temos uma sorte de conclusão.
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A riqueza do poema vem desta simbiose entre a estrutura da Prosa e a da Poesia.
Apesar da referência já feita aos ‘momentos’ do poema, porventura mais próximos da estrutura da Prosa, este texto é Poesia. Não um ‘texto poético’, como muitas vezes se diz, mas um Poema, um belo exemplo de Poesia:
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Já referimos a sua linguagem complexa, por vezes ambígua, que se revela em:
– o vocabulário exacto e escolhido – ex: exúria;
– a rica adjectivação – ex: voo bisado;
– os verbos que transmitem o dinamismo das cenas e as mudanças de cenário;
– as frases muito curtas – ex – Há um frémito incessante // Longa é a espera;
– a ambiguidade, ou desconstrução das estruturas gramaticais: ex: a 5ª estrofe:
do primeiro verso desta 5ª estrofe, “morre por fim a angústia à beira-mar”
passa-se ao verso seguinte pela copulativa “e”; mas a mudança de linha implicou uma mudança de frase, que fica sem verbo, e será o leitor que terá de o “sentir”! Ou seja – a angustia morreu, “e no olhar dos homens e das aves (nasceram) … a paz e a saciedade”
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A última estrofe é uma conclusão algo filosófica, algo amarga – pois as “bocas” são identificadas como “esfaimadas” e a vida como uma sucessão de “marés fracassadas”… Há assim, uma frequência de metáforas, metonímias baseadas na homonímia , ex: “as penas”…
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O poema faz um paralelo muito claro entre o homem e as aves – somos todos predadores, todos nos alimentamos à custa do mais fraco ou, se preferirmos, do que está “na mó de baixo” – tanto os homens como as gaivotas “caçam” os peixes, seres mais indefesos na cadeia alimentar. Confundem-se “os gritos estridentes” de homens e aves; confundem-se ainda como se fossem um só, ligados pela copulativa ‘e’, nas “preces promessas /e a água ensopa o coração das aves e escorre das penas dos homens” – sendo as “penas” um reforço dessa ambígua fusão – as penas das aves e as penas ou sofrimentos e trabalhos dos homens.

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Fonte da imagem:

https://pt.dreamstime.com/foto-de-stock-traineira-da-pesca-no-mar-image31911060

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 22 de Março de 2014,  pelas 24h

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Uma foto feliz

Fotos — Myriam de Carvalho @ 11:10 pm

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Uma foto feliz

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Publicada por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 22 de Março de 2017, pelas 23.00 horas

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POETA-FÊMEA?

Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 9:34 pm

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POETA-FÊMEA ?

Vejo que um prestigiado nome se refere a uma prestigiada poetisa portuguesa como “poeta-fêmea”.
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Nem li o artigo todo, de tal modo fiquei incomodada.
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Há uns anos atrás, surgiu a denominação de “mulher-poeta”…
Desagradável.
Não se chega a perceber se a intenção de usar tal designação é feminista… Ou será machismo encapotado?
Por qual razão há tanto pudor em utilizar a palavra POETISA? E será que para ser ‘poetisa’ acreditada, uma autora de Poesia tenha que se assimilar aos émulos masculinos? Será que somos “concorrentes e/ou rivais”, ou que somos, finalmente, “complementares”?

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Porque o termo POETISA nos remete para as escritoras-poetisas dos séculos anteriores?
E que mal tem?
Se há PROFESSORES e PROFESSORAS, ENGENHEIROS e ENGENHEIRAS, MÉDICOS e MÉDICAS, ADVOGADOS e ADVOGADAS, EMPREGADOS e EMPREGADAS, CRIADOS e CRIADAS, GATOS e GATAS – qual o inconveniente encontrado na palavra POETISA?

As poetisas de épocas não muito distantes eram demasiado domésticas? demasiado apaixonadas? demasiado decadentes?
OK… Era a Cultura que era permitida às Mulheres. Poucas a ultrapassavam… Era precisa muita coragem para ir além das restrições sociais, por vezes demasiado penosas, como é do conhecimento geral (assim o espero).

Será a moda dos anglicanismos?
A mesma moda que fez rever as nomenclaturas gramaticais, adoptando designações anglo-saxónicas, pouco adaptadas às estruturas da nossa língua românica?
Nós os Portugueses, tal como as outras línguas latinas, temos substantivos e adjectivos com formas de feminino e de masculino.

Por vezes, há pessoas que, por delicadeza, me perguntam:
“Como quer ser tratada? Como ‘mulher-poeta’ ou como ‘poetisa’?”…

Mulher-Poeta, é uma pompa que declino. Não sou homem, não nasci homem; sou mulher, e tenho feito o meu melhor a honrar o meu género.

POR FAVOR, nunca me insultem, nunca me tratem por ‘poeta-fêmea’. Em Português, quando falamos de ‘machos’ ou de ‘fêmeas’, estamos a falar de animais, de bichos, de bicharada.

E já agora, recordo o comentário jocoso de um excelente Amigo meu, nascido nos anos 30 e residente no Norte do País:

“…e ele há cada POETISO…!”

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Fonte da Imagem:

http://significance.weebly.com/women-in-pompeii-and-herculaneum.html

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Publicado – aqui e no FB, por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 22 de Março de 2017, pelas 21h 30m

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Quem é Mphumo João Craveirinha

Contos — Myriam de Carvalho @ 2:15 pm

Quem é Mphumo João Craveirinha?

Mphumo João Craveirinha (que também assina como Mphumo John Kraveirinya – 1947), é um afro-português, Moçambicano de nascença, e Português porque como ele próprio costuma dizer com graça, ele “nunca pediu a nacionalidade portuguesa” uma vez que nasceu em tempo colonial, quando as antigas colónias eram designadas como “províncias ultramarinas” integrantes “de jure”(!) do território nacional.

Mas sempre um Português que permanece fiel ao seu país de origem, não como um “coração dividido”, mas como um “homem completo”.

Mphumo João Craveirinha é descendente, por via materna, das linhagens reais dos Mphumo, Tembe, Libombo, Hunguana.

Por via paterna, é descendente de um português de Aljezur (Algarve). Seu avô, polícia e versejador, radicou-se na cidade colonial de Lourenço Marques. Aliás, o dom da Poesia vinha sendo característica dos Fernandes Craveirinha, de Aljezur.

Além de escritor, Mphumo João Craveirinha é pintor, sendo o autor do monumental mural histórico (1976-1979) patente na Praça dos Heróis, na cidade de Maputo.

É ainda dramaturgo, poeta, autor de romance de não-ficção (investigação) e de contos para crianças.

É também jornalista (jornalista pró-bono, solidário com o jornal on-line O AUTARCA, publicado na cidade da Beira, em Moçambique, dando-nos a apreciar excelentes crónicas de análise político-social.

E além de tudo isto, é doutor em Ciências da Cultura, especialização em Comunicação e Cultura, e sociólogo e investigador, sendo um dos seus centros de interesse o estudo aprofundado das implicações da época das Descobertas (portuguesas) com a Escravatura e a Economia globalizada do mundo actual.

Não sei o que mais admiro neste autor. Se a sua capacidade de comunicar o seu vasto saber, se o seu inabalável amor ao seu país natal – Moçambique. Conhecedor dos meandros dos costumes e da História do seu País, Mphumo João Kraveirinha é incansável na sua divulgação. Eternamente magoado com as injustiças da Expansão e História Colonial, apaixonado pelo imenso Continente Africano, é através da sua escrita esclarecida que sem descanso tenta dar a conhecer os detalhes do vasto e trágico caleidoscópio que a História Colonial constitui.

Mas não se confinando aos temas da escravatura, Mphumo João Craveirinha está a elaborar um memorial sobre a sua ascendência algarvia.

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Além do que atrás fica referido, Mpfumo João Craveirinha e sua esposa são meus grandes Amigos. Sendo que a verdadeira Amizade é um dom da Vida, que até não é pródiga em dádivas como essa.

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A finalizar este breve apontamento, saliento que Mpfumo – significa rei, chefe, senhor, líder. Equivalente ao título, nas línguas ibéricas, atribuído aos reis. Exemplo – em Portugês – Dom Manuel II (1889-1932, último rei de Portugal). Ou, em Espanhol – Dom Filipe VI, actual rei de Espanha (1968; proclamado rei em 19 de Junho de 2014).

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 19 de Março de 2017, pelas 14h 15m

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Professor Pasquale Cipro Neto passou por Lisboa

Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:47 am

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Na sua última passagem por Lisboa,

um breve encontro com um precioso Amigo,

o Professor Pasquale Cipro Neto.

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Legenda da segunda foto:

Professor Doutor Pasquale Cipro Neto, linguista brasileiro, de renome nacional e internacional.

O maior divulgador da Língua Portuguesa, no Brasil,

durante cerca de 20 anos,

através das redes de televisão – TV Cultura, e TV Globo.

Estimado o recorde de cerca de 22 milhões de audiência,

nos seus programas, nesse período.

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Para além desta legenda esclarecedora, e pela minha parte, foi um prazer conhecer pessoalmente uma pessoa tão simples e acolhedora.

Foi gentileza do casal Silvya e João Craveirinha, velhos Amigos do Professor.

Foi um serão bem disposto e divertido.

Eu li alguns poemas mais meus favoritos,

e todos nos rimos com gosto!

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As fotos são do meu Amigo, Professor Mphumo João Craveirinha.

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 15 de Março de 2017, por volta da 1h.

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Finalmente, uma opinião

Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:43 am

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Breve opinião da minha Amiga Marina Tadeu,
enquanto não pode enviar-me um texto mais estruturado,
sobre O Livro das Actas:

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” Acho os seus poemas revolucionários pelo mais completo despretensiosismo que revelam

– com domínio impecável da língua, claro.

Adoro o livro.
DIFERENTE!
NO melhor sentido do termo.
Estabeleci logo uma empatia irracional com o que o livro revela,

uma mente capaz de sair do aprisionamento da vida prática,

e aberta à beleza das coisas simples e verdadeiras.
Alguns dos poemas davam belas canções.
Eu ouço música quando os leio. ”
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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 15 de Março de 2017, por volta da 1h

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Camille Claudel

Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 11:22 pm

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Dia 8 de Março de um ano qualquer – Dia Internacional da Mulher

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A igualdade de género, na verdade, tem muito que se lhe diga.

Um caso típico é a história dramática de Camille Claudel – cuja vida decorre entre as datas de 8 de Dezembro de 1864 e 19 de Outubro de 1943. Uma história extremamente próxima da minha, pois Camille Claudel morreu apenas um ano antes do meu nascimento.

Era irmã mais velha do poeta e diplomata Paul Claudel.03 08 Camille Claudel

Quanto a Paul Claudel, não sei se ele foi um poeta que para ganhar a vida com gabarito se meteu na Diplomacia, ou se era um diplomata que versejava nas horas vagas.

Porque apesar de se tratar de um poeta que nos deixou escritos de alta espiritualidade, eu considero-o destituído de coração.

Camille Claudel foi revelando algumas dificuldades de comportamento. No seu tempo a psiquiatria estava embrionária… Lembremos que o próprio Freud só era mais velho que Camille uns escassos 8 anos – Freud nasceu em 1856. E nessa época, se uma mulher perturbava, o remédio podia ser simplesmente o internamento num hospício. Isso foi bem documentado na novela brasileira “Lado A Lado” – havia muitas formas de incomodar, e uma delas era o exercício de uma actividade artística. Menos de um século antes, Jane Austen (1775-1817) não assinava os seus livros. George Sand, uns escassos 60 anos antes de Camille, optou por assinar a sua obra com pseudónimo masculino.

E Camille Claudel perturbava demasiado. Porque sendo menina de uma família de católicos pergaminhos, era escultora, e ainda por cima envolveu-se seriamente com o grande Auguste Rodin (1840-1917), mais velho que ela, e por sua vez com a estabilidade familiar mais ou menos organizada…

Foram Paul Claudel e a mãe de ambos quem colocou Camille num hospício, e segundo li numa biografia aqui na Net, sem sequer permissão de lhe fornecerem papel ou lápis que mais não fosse para se entreter… E as freiras do dito hospício, veneradoras e obrigadas, obedientemente, cumpriam a prescrição à risca.

Diz-se que quando por acaso pintava ou desenhava, ela mantinha-se calma. Mas o peso dos preconceitos falou mais alto. Esculturas e desenhos “realistas” podiam manchar a honorabilidade do irmão diplomata…

Com algumas variantes e talvez atenuantes, ainda se verificam histórias destas nesta transição do século XX para o século XXI. Quando penso nisto, nem sei bem se estremeço de horror, ou se me sinto grata ao Criador…

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© Myriam Jubilot de Carvalho

2017 – 03 – 08

Fonte da Imagem:

Na biografia de Camille Claudel, na Wikipedia.

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 8 de Março de 2017, pelas 23 horas.

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Dia Internacional da Mulher – 2017

Contos — Myriam de Carvalho @ 11:34 am

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Ser Mulher, e ser Homem – não há diferença – é sermos os autores das nossas vidas.
E vou citando…
Aung San Suu Kyi,
Malala Yousafzai,
Charlotte Bronte.
. Quanto à criação em Arte – essa, não tem género.
. Quanto à ‘educação feminina’, não vai longe o tempo em que se considerava que às Mulheres bastava saber ler a Bíblia.
Ainda actualmente, há quem deseje que a Mulher se confine ao lar e aos filhos. Todos teremos tido oportunidades de testemunhar isso.
Mas a questão não está no “confinar-se” – a questão está no equilíbrio, e no respeito mútuos, que levam à colaboração.

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Citações retiradas de:

20+ Powerful Quotes To Celebrate International Women’s Day

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 8 de Março de 2017, pelas 11h 30m

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O Livro das Actas – Introdução e Posfáfio

Poesia — Myriam de Carvalho @ 9:10 am

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Na página de frontispício deste livro, figura a seguinte inscrição:

“Este livro inaugura um novo conceito de edição

no século XXI – o Livro totalmente elaborado pelos seus autores – neste caso,

pela autora Myriam Jubilot na divulgação literária do seu labor

em colaboração livre com outros dois autores.”

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O livro é, como se depreende, “Edição de AutorA”.

Para todos os efeitos legais (1), a editora sou eu própria, Fátima Domingues, e a obra é assinada pelo meu pseudónimo, Myriam Jubilot.

Da Ficha Técnica constam, ainda:

Silvya Gallanni, na divulgação da obra,

e Kraveirinha Mphumo, como artista gráfico:

sendo eles próprios igualmente editores das suas próprias obras, cuja publicação se iniciará dentro em breve.

Como se depreende, um grupo de três Amigos em franca colaboração!

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Fátima Domingues, a Editora de “O Livro das Actas”, no Posfácio,

situa o livro entre dois parâmetros – Fernando Pessoa e António Aleixo, o poeta erudito e o poeta popular.

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Os textos aqui expostos representam uma fuga ao instante, ao momento, uma necessidade vibrante de liberdade interior. No meu “5X5 / 25 Poemas”, Travanca-Rêgo identificou “um ritual de acompanhamento do quotidiano” – ritual que se mantém aqui, embora de forma aparentemente menos elaborada, pois estes textos têm, frequentemente, a forma de “quadras”. No entanto, as “quadras”, como sublinhou Fernando Pessoa no seu prefácio à sua colectânea Quadras ao Gosto Popular, sob a sua aparência de “poesia breve”, constituem um enunciado conciso, e conclusivo. E são a forma nata da poesia repentista, dando-lhe um tom por vezes contundente e satírico, por vezes amargo.

As quadras, na sua forma simples e fluente, captam o instantâneo, e são por isso aptas ao improviso, e ao “despique” (ou canto à desgarrada).

O grau de elaboração conceptual, com as quadras, não está na “forma”, geralmente sentida como “popular”, e “ingénua”, mas no substracto conceptual patenteado no “conteúdo”… São disso prova as apreciadas quadras de António Aleixo.

Nesta fuga ao instante presente, refugiei-me, muitas vezes, num diálogo imaginário com alguns dos meus pares…– daí a presença de muitas intertextualidades – a que eu prefiro chamar “mestiçagem textual”…

Fátima Domingues

27 de Dezembro de 2016

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(1)

O livro é completamente legal, pois foi feito o Depósito Legal

e tem código de barras.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 1º de Março de 2017, pelas 9h 10m

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Teoria da Música

Poesia — Myriam de Carvalho @ 8:55 am

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Última publicação em “Diversos Afins”, revista on-line publicada no Brasil.

Conforme designação dos seus editores, Fabrício Brandão e Leila Andrade, esta foi a “116ª Leva”, saída em fevereiro deste ano.

Ilustrada com foto de: Antonio Paim

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Teoria da Música

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Por vezes, a minha Fada ausenta-se. É

caprichosa, vagabunda, peregrina.
Fico de mãos a abanar, menina
perdida, sem pátria nem lar.

Mas quando regressa, cantam as ervas
na beira da estrada,
as gaivotas desafinadas,
as andorinhas estreloucadas!
Até as ondas na balaustrada,
até as pedras pisadas da estrada.

A minha Fada regressa. Um dia ao acaso, sem aviso.
Não bate à porta. Entra naturalmente, instala-se.
E os versos saem, de improviso, num sorriso impreciso mas
conciso.

A minha Fada, minha Deusa, minha mãe
e minha irmã
Essa mãe que não tive
E me tem valido – sábia como um divã

**

O chiar desesperante dos pardais
e o grasnar das gaivotas
A leve aragem marinha,
os ruídos da autoestrada
Despertadores infalíveis
da manhã da praceta

Ainda descolorido, o sol
começa a aquecer as vidraças da janela
Um avião cruza com estrondo o céu
ainda embaciado

Calam-se os últimos pardais
Fica no ar o chilreado de alguma andorinha
Os primeiros carros começam a arrancar
da garagem nocturna sob as estrelas

Mas eu tenho a minha estrela
Uma, que brilha sobre os tectos dos prédios
Haja sol ou haja vento,
Seja dia ou seja noite
Senta-se comigo ao computador,
diz-me as palavras certas
Maternalmente, afaga-me os cabelos
“aqui está bem”,
“aqui, é para alterar”
E bebo mais um golo de água, e
vou roendo uma maçã

***

Escolho as palavras como quem escolhe
as pedras da calçada que não magoem os pés,
ou como quem escolhe as pedras menos
escorregadias por entre as poças de chuva,
ou como quem escolhe as passadeiras
mais seguras para atravessar a ribeira…

As palavras existem anteriores a nós… dádiva
das gerações passadas… antigas
como o Tempo…

Têm Fogo nos pés como Mercúrio,
Têm Música no coração, como a Noite,
Fazem amor entre mim e o papel

As palavras são violetas de estufa…
Precisam de Ar, e de Luz suave
para não lhes queimar as folhinhas

As palavras fazem-me dançar
Batem-me o ritmo no contraste
das oclusivas,
Adormecem-me os passos na toada
das nasais,
Abraçam-me
no jogo das vogais…
Dão que pensar nos símbolos e
nas metáforas…
Esmagam-me se rimo.

As palavras têm que estar maduras
como as uvas para a vindima

© Myriam Jubilot de Carvalho

Os Editores assinalam o meu nome

apenas como Myriam de Carvalho.

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 1º de Março de 2017, pelas 8h 55m.

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