Machado de Assis e a sua obra “Dom Casmurro”

* Estudos e Comunicações — Myriam de Carvalho @ 5:51 pm

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Como verifiquei, com a prática, que postar aqui a página autêntica do jornal O AUTARCA, acaba por não resultar, pois a imagem acabará por desaparecer, reproduzo apenas o texto do artigo que publiquei no mesmo jornal, de que sou colaboradora regular, como já várias vezes aqui indiquei.

A página tem layout, como de costume, do Artista, meu amigo, Mphumo João Kraveirinya:

O AUTARCA . Primeiro jornal electrónico editado na cidade da Beira

Ano XIX – Nº 3723 – Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

páginas 6/9 até 9/9

sendo a última destas páginas, preenchida com a reprodução da capa da primeira edição brasileira, e a capa do livro que li, em edição da Universitária Editora, Lisboa, 1997.

Sendo um artigo para um jornal diário, o texto é muito sucinto.

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Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) é considerado um dos grandes escritores do Brasil, senão o maior.

Foi ele o iniciador da corrente realista no Brasil. Assim, sendo um autor realista – através das suas personagens, ele retrata a sociedade tal como ele a vê. Mas escreve num estilo muito próprio, ironizando e por vezes mesmo, ridicularizando, as hipocrisias e misérias humanas que vai fazendo desfilar perante os seus leitores.

Dom Casmurro, o romance

Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis conta a vida de Bentinho. A história é contada pelo próprio protagonista.

As narrativas na primeira pessoa são, como se sabe, muito mais sugestivas. Dom Casmurro é a alcunha que as pessoas dão a Bentinho, mais tarde, quando, já adulto marcado pela grande desilusão que atingiu a sua vida, ele se torna um homem calado e taciturno.

A época em que decorre a “acção” em DOM CASMURRO:

A “acção” passa-se  no decurso do século XIX, no Brasil.

 O início da “acção” reporta-se a 1857. É o tempo do Romantismo.

Vive-se sob o prestígio da Igreja católica e sua influência sobre a educação feminina; o tempo da autoridade dos progenitores, e de um currículo escolar específico para as meninas.  Ainda tem grande peso a cultura clássica greco-latina. Reina o imperador D. Pedro II. É o Ciclo do Café, já se notando a presença italiana. Ainda se morre de lepra (o que ainda hoje, na nossa actualidade, se verifica). É o tempo de Pio IX; da Guerra da Crimeia.  E também de  disputas entre a Europa e os EEUU sobre a posse de algumas ilhas.  

A Escravatura

A Escravatura vigorou no Brasil logo a partir do século XVI. Foi a mão de obra por excelência do Ciclo do Açúcar. Só terminaria após a Lei do Ventre Livre, datada de 1871; e definitivamente, após a Lei Áurea, de 1888.

Por seu lado, a presença italiana está relacionada com o Ciclo do Café. Conheceu o seu ponto máximo entre 1880 e 1930, coincidindo esta última data com o final deste ciclo.

Na sociedade portuguesa, os escravos foram, como diz José Ramos Tinhorão, “uma presença silenciosa”. Em “Dom Casmurro”, Machado de Assis ilustra bem essa afirmação: o Autor regista a existência dos escravos. Refere a sua condição, sem tecer comentários. Aliás, quaisquer comentários seriam dispensáveis.

Logo no início da obra, ao apresentar D. Glória, o Autor faz-nos encarar a realidade de uma senhora muito religiosa mas que não se perturba com a crueldade que é vender pessoas (escravos) ou alugá-las, pondo-as “a ganho”.

Por outro lado, logo no início desta obra, no capítulo 9º, capítulo muito importante, o Autor compara a vida a uma ópera. Deus é o autor do libreto, mas o Inferno é o autor da partitura. E portanto, “assim se explicam a guilhotina e a escravidão”. Com este capítulo magistral, Machado de Assis diz tudo.

Como é retratada a “presença silenciosa” dos escravos

A- Muitos escravos vivem com a família. Comportam-se com conformismo e há momentos em que demonstram respeitosa ternura ou familiaridade para com Bentinho, o protagonista-narrador.

Mas em geral, são “o pau mandado” a que se manda executar alguma tarefa.

Capítulos: cap. XX (pág 46), cap XXXIX (pág 74), cap LIII (pág 90), cap LXXI (pág 116), cap LXXXVI (pág133), cap XC (pág 149), cap CXXI (pág 176).

B- Os nomes dos escravos são-lhes atribuídos pelos senhores, e substituem os seus nomes originais. Por vezes, os nomes indicam a sua origem geográfica:

cap XCIII (página 140).

C- Outros, são “escravos de ganho”: cap VII (p. 25), cap XCIII (p.140).

Nos capítulos VII (p. 25), e XCIII (pp. 140/141) fica claro que ter “escravos de ganho” era equivalente a ter uma pequena empresa.

D- Aparece ainda um ex-escravo, que vende na rua. cap CX (p. 162).

E- Finalmente, no capítulo CXLV (p. 198) o Autor já não fala em “escravo”, mas sim em “criado”. O que situa o fim do romance após a abolição da Escravatura.

A Mulher

A figura feminina é moldada pelo ideal Romântico:

A Mulher é representada segundo dois extremos: D. Glória, mãe de Bentinho (o protagonista), profundamente religiosa; e Capitú, uma jovem “laica”.

A Mulher ideal toca piano, é sempre alegre e dinâmica, dirige a criadagem, sabe dar um conselho e aclarar as hesitações profissionais ou de negócios do marido. A Mulher deve pois, ser delicada, pura, e dedicadíssima.

Enfim, é o tempo em que se idealizava a mulher dentro do paradoxo da “virgem e mãe”, ignorante em formação escolar geral, mas religiosa até à superstição.

O que a torna egoísta, possessiva, narcísica, manipuladora.

Assim, educado com medo da mãe, Bentinho (mais tarde o Dr. Bento) fica um homem frágil, que se coloca sucessiva e acriticamente, sob a protecção de José Dias, de Capitú e, finalmente, do amigo Escobar. Por isso, é manipulado e, provavelmente, traído.

A terminar

Neste excerto do capítulo IX, “A Ópera”, o Autor  compara a vida das sociedades humanas ao libreto de uma ópera. Conforme referimos atrás, esta ópera seria escrita por Deus e musicada por Lúcifer.

Este capítulo é uma brevíssima obra-prima. Nele, vemos a ironia e crítica social de Machado de Assis no seu tom mais amargo:

(p. 27):

“Deus é o poeta. A música é de Satanás (…)

“Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

– Ouvi agora alguns ensaios!

– Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão.” (…)

© Myriam Jubilot de Carvalho – Julho, 2019

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 18 de Julho de 2019,  pelas 18h 50m

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Le Clézio, na TV5 Monde, falando sobre Cultura

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 3:02 pm

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Le Clézio, Nobel da Literatura em 2008, sobre Cultura, afirma:

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«  Il faut métisser la Culture; c’est la seule manière de la rendre universelle.

Dans ce monde égoïste  et cupide, tout s’exporte. Sauf l’humanisme. »

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Jean-Marie Gustave Le Clézio

Na sua participação no programa La Librairie Francophone, da TV5 Monde, no passado dia 7 de Julho de 2019.

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Julho de 2019, pelas 16h

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A árvore, segundo Susanna Tamaro

* Antologia — Myriam de Carvalho @ 11:19 pm

 

A árvore

… “Desde que desponta até que morre, está sempre parada no mesmo sítio. As raízes fazem-na estar mais perto do coração da terra do que qualquer outra coisa, a copa fá-la estar mais perto do céu. A linfa corre no seu interior de cima para baixo, de baixo para cima. Expande-se e retrai-se em função da luz do dia. Espera pela chuva, espera pelo sol, espera por uma estação e depois por outra, espera pela morte. Nenhuma das coisas que lhe permitem viver depende da sua vontade. Existe e mais nada. Compreendes agora porque é belo acariciá-las? Pela sua solidez, pela sua respiração tão longa, tão tranquila, tão profunda. Algures na Bíblia está escrito que Deus tem as narinas largas. Embora seja um tanto irreverente, sempre que tentei imaginar uma parecença para o Ser Divino veio-me à ideia a forma de um carvalho.

Na casa da minha infância havia um, tão grande que eram precisas duas pessoas para lhe abraçar o tronco. Aos quatro ou cinco anos, já gostava muito de ir ter com ele. E lá ficava, sentia a humidade da erva debaixo do traseiro, o vento fresco nos cabelos e na cara. Respirava e sabia que havia uma ordem superior das coisas e que eu estava incluída nessa ordem juntamente com tudo aquilo que via. Embora não soubesse música, algo cantava dentro de mim.”

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in Vai até onde te leva o coração

de Susanna Tamaro

Editorial Presença

11ª edição, Lisboa, Novembro 1998;

pág 41

Publicado por Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 25 de Junho, pelas 00h 18m

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Mais faz quem quer

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 5:17 pm

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Mais faz quem quer do que quem pode – diz um provérbio português.

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Este considerando confirma-se através das iniciativas de pessoas maravilhosas que levaram a cabo iniciativas que podem mudar o futuro do planeta.

Referimo-nos às iniciativas de recuperação dos solos sujeitos a desertificação quer por causas naturais quer pela desordenada acção humana.

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Já aqui falámos da criação do GREEN BELT MOVEMENT, pela queniana WANGARI MAATHAI, prémio NOBEL DA PAZ em 2004 e INDIRA GANDHI PEACE PRIZE em 2006.

A partir da sua iniciativa de criação de uma cintura verde em volta das cidades e outras povoações, nasceu a criação de uma zona de floresta na faixa sul do Sahara, uma floresta que se vai expandindo como tampão à desertificação.

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Outra iniciativa de projecção mundial é a do casal LÉLIA WANICK SALGADO e SEBASTIÃO SALGADO, que fundaram o Instituto Terra, no Brasil.

Na ausência de Sebastião Salgado, frequentemente em viagens de reportagem fotográfica pelo mundo, Lélia Wanick Salgado empreendeu a reflorestação da vasta propriedade que o casal herdara do pai do famoso fotógrafo.

Esta iniciativa ganhou tais proporções que o casal teve que solicitar o apoio do Estado, e assim nasceu o INSTITUTO TERRA.

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Recentemente, tive conhecimento da atribuição do RIGHT LIVELIHOOD AWARD 2018, o chamado prémio Nobel Alternativo, ao agricultor YACOUBA SAWADOGO, que pacientemente perseverou na utilização de métodos tradicionais de plantio de árvores e assim foi recuperando terrenos que se tinham tornado áridos.

“Desde 1980, durante um período de seca severa, Sawadogo deu vida entre Burkina Faso e Níger a mais de 40 hectares de florestas em terras anteriormente estéreis e abandonadas. Hoje, mais de 60 espécies de árvores e arbustos prosperam. Esta é, sem dúvida, uma das florestas mais diversificadas plantadas e geridas por um agricultor do Sahel.”

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Wangari Maathai era bióloga, e Lélia Salgado é arquitecta. Mas que eu saiba, Yacouba Sawadogo não tem estudos universitários. Yacouba Sawadogo baseou-se nos conhecimentos tradicionais para reter as águas das chuvas e com esses procedimentos preservar a humidade dos terrenos. Yacouba Sawadogo confiou nos conhecimentos acumulados pela experiência prática dos seus antepassados!

A lição que eu tiro daqui, é que precisamos de olhar com AMOR para o ambiente em que vivemos. Para o preservarmos. E assim deixarmos uma herança positiva aos nossos descendentes.

 

Fontes:

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Sobre o GREEN BELT MOVEMENT e a sua criadora:

https://www.greenbeltmovement.org/who-we-are

ou

https://www.nobelprize.org/prizes/peace/2004/maathai/biographical/

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Sobre o INSTITUTO TERRA e a acção do casal Lélia e Sebastião Salgado:

Sebastião Salgado e Lélia Wanick Salgado contam a história do Instituto Terra

https://www.youtube.com/watch?v=W12TjUIkjMY

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Sobre YACOUBA SAWADOGO:

https://educezimbra.wordpress.com/2018/12/19/yacouba-o-agricultor-que-semeou-o-deserto-ganha-o-nobel-alternativo/?fbclid=IwAR2RhclV3ZRsdkFmZxXFDOSrTdh-pQxohara9k2UI86_4fZ-31qSWJY2hd4

ou:

https://www.greenme.com.br/informar-se/agricultura/1911-replantar-o-deserto-recuperando-fertilidade-solo

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Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 22 de Junho de 2019, pelas 18h 19m

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Arqueologia

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 2:59 pm

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Arqueologia

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Somos o resto de uma civilização perdida

Rastejamos no solo à procura de restos,

indícios da sabedoria de ouro de antigos sábios

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Abrimos buracos nas grutas ocultas

Escavamos na terra preciosa os ossos de antanho

Nas pedras eloquentes, nos papiros amarelecidos

procuramos registos da vida passada

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Enquanto sem futuro nos destruímos

A Terra nos deu

A Terra nos engole. E de vez em quando

renascemos, e rastejamos…

Rastejamos, sempre

até nos perdermos novamente

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Quase à beira da morosa

conquista de uma sabedoria

Quase a ponto

de aceitarmos a nossa origem remota

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E quase a ponto de nova destruição

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© Myriam Jubilot de Carvalho

18 de Janeiro de 2018

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 16 de Junho de 2019, pelas 16h

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Dois livros para ler a par e passo

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 7:29 pm

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Sugestão de leitura:

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Na altura em que publiquei aqui o post sobre Notre-Dame, esqueci-me de anotar este pormenor:

Li, em paralelo, ou talvez mais explicitamente, a par e passo, os dois livros citados nesse post, Os Templários, e As Cruzadas vistas pelos Árabes.

Foi um exercício muito proveitoso. Pois a informação fornecida por cada um dos autores, é obviamente coincidente.

No entanto, a narrativa de Amin Maalouf  amplia a nossa perspectiva crítica, pois transmite-nos os sentimentos dos povos do Próximo Oriente que se viram sem mais nem menos invadidos pelos Europeus.

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Referências:

Os Templários, de Piers Paul Read; ed. Imago, Rio de Janeiro, 2001;

As Cruzadas vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf; ed DIFEL, 10ª ed, 2001

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Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 5 de Maio de 2014, pelas 20h 25m

 

Dia das Mães, 5 de Maio de 2019

* Poesia — Myriam de Carvalho @ 12:51 pm

 

Minha Mãe

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Fala comigo, Deusa minha Mãe – Grande Mãe Universal.

Tens-me mantido acordada, tens-me dado a mão amada,

Tens sido a minha Guia, a minha mão-de-fada,

Só tu me livraste da erosão total.

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Fala comigo, Deusa minha Mãe, Rainha do Universo,

Inspiração das grandes obras – dos feitos dos grandes homens

no tempo em que as mulheres não tinham direito ao Verbo,

E vem dançar comigo nas raízes fecundas dos meus versos.

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Somos a grande Música espalhada pelo Vento,

as grandes cores de afrescos e painéis

e os Davides contemplando o seu próprio Pensamento.

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Somos a voz frenética das ondas, dos pinhais vagabundos na lonjura,

o chilrar das aves apelando por parceiros de ventura,

os sinos que dobram ou repicam nas torres aladas do Palácio da Grande Aventura.

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Como viver sem ti se a noite vai longa e tenebrosa,

se os deveres são duros e penosos?

Como viver longe de ti,

ó minha grande Mãe, amada e única Mãe Gloriosa?

Chamaram-te Ísis – Deméter –

Sophia –

Virgem Maria !

Mas eu só te sei um nome –

Poesia

Myriam Jubilot de Carvalho

Poema final de “E no fim era a Poesia”, pág 81

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© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 5 de Maio de 2019, pelas 13h 50m

 

 

 

Onde está o Sul do Tejo?

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 10:58 am

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Onde está o Sul do Tejo?
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Ainda acontece. Quando por vezes tenho que dizer que sou algarvia, alguém reage e dá um salto na cadeira, abre uma gargalhada inoportuna, e exclama com uma expressão que não sei exactamente definir, mas que não sinto agradável:
– Ah! Sua moura!
– Com que então, és moura?!
Moura ou não, nasci no Sul, e nisso tenho grande prazer.
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Isto vem a propósito da reportagem que eu estava a ouvir na Antena 2, sobre o concerto de abertura de Os Dias da Música, no Centro Cultural de Belém.
Aos microfones da Antena 2, anunciava-se que iam actuar coros infantis e juvenis de Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro. E claro, o comentário surgiu, neste teor:
– É uma participação a nível nacional!
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Eu gostaria de ter podido perguntar:
-Como?! Lisboa-Porto-Coimbra-e Aveiro – Isso diz respeito ao conjunto nacional – Ou será apenas uma fracção não representativa do país?!
E o Interior?
E o Sul – todo o Sul?!
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Como este caso não é único, muitas vezes me pergunto: “Haverá, neste olvido, alguma responsabilidade das pessoas do Sul?! Serão os Algarvios que não se fazem lembrar, que se deixam ficar no seu canto, à espera que figos e amêndoas caiam das árvores?!”
Ou será ainda o velho sentimento discriminatório de que o Sul foi conquistado pelo Norte? Mas isso aconteceu no séc XIII, vai para 800 anos! Ainda viveremos nós sob o peso das ondas de choque da Reconquista?
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Segundo julgo saber, o Sul continuou com a designação de “Reino dos Algarves” apenas porque os reis portugueses achavam pomposo contar com esse título na arreata de títulos que ostentavam.
Ainda os nossos últimos reis ostentavam a lista de títulos que rezava: “Pela Graça de Deus, Rei (ou Rainha) de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor(a) da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.”
Nessa enfiada de títulos, tinha tanto significado mencionar o Reino dos Algarves como o etc final!
Ou seja – A frase-feita de que “Portugal é Lisboa e o resto é conversa” continua a ter peso na expressão oficial nacional.

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Nós, os Algarvios, mouros ou não, temos muito orgulho na nossa herança ancestral feita da fusão de tantas culturas e religiões, sobretudo mediterrânicas e do Próximo Oriente, que nesta região deixaram a sua marca:

Aos antigos Iberos (provavelmente oriundos do Norte de África) que se fixaram mormente na zona oriental da Península, vieram juntar-se os Celtas, oriundos da Europa do Norte e Central. Estes fixaram-se sobretudo no Ocidente peninsular. Esses grupos viveram uma maior fusão na zona central da Península.

Ao longo dos séculos, muitos outros povos demandaram a Península, e mais ou menos pacificamente, aqui se fundiram com os povos já aqui fixados:

Fenícios (Palestina – Próximo Oriente). Ao tempo da chegada dos Fenícios já prosperava no Sul peninsular, o Reino de Tartessos, com cultura própria e já com domínio da Escrita – a ainda não decifrada Escrita do Sudoeste. Gregos (sul da Europa Oriental), Cartagineses (meio Fenícios meio Berberes – Norte de África). Romanos. Judeus (meio Egípcios meio Fenícios ou Palestinos). Vândalos e Suevos (Norte da Europa). Alanos (Norte do Irão, Planalto do Pamir). Visigodos (Norte da Europa).    Bizantinos (sul da Europa Oriental e Próximo Oriente, em parte uma evolução da Cultura Grega). Berberes (Nordeste de África, mais ou menos Arabizados). Cultura Árabe, que absorveu marcas que vão da Síria ao Iémen, e ao Irão.

A tudo isto, veio sobrepor-se o legado de uma fracção esquecida da nossa população – a herança genética e cultural dos Escravos Africanos, vindos de diferentes paragens do imenso continente africano, e que igualmente ao longo de vários séculos, se fundiram com a população que os aprisionava, explorava e oprimia.

Resta acrescentar que as belas Lendas de Mouras Encantadas são muito provavelmente reminiscências da Cultura Celta, com o seu culto da Natureza.

Posto isto, como não nos orgulharmos da riqueza compósita do nosso ADN físico e cultural?

 

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Aqui no blogue, em 27 de Abril de 2019

No FB, na noite anterior.

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Notre-Dame

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 11:30 am

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Notre-Dame

Assiste-se a um lamento tão profundo pela perda de Notre-Dame e pelos seus 850 anos de História, que sinto que devo postar este apontamento. Talvez possa recordar alguns factos a quem ande esquecido, ou trazer algum esclarecimento a quem os ignore.

Em primeiro lugar, a Notre-Dame que todos conhecemos, é o fruto do restauro a que se procedeu no século XIX.

Viollet-le-Duc foi o arquitecto desse profundo restauro. Inclusive, foi ele o autor do famoso pináculo de Notre-Dame. Ou seja, a “flèche” que tanto nos deslumbrava, tinha mais ou menos um século e meio de história, não mais. Em segundo lugar, recordo este detalhe que muita gente ignora, e que diz respeito ao surgimento do Gótico, esse estilo arquitectónico que é um dos grandes orgulhos dos Europeus.

Seria bom perguntarmo-nos como nasceu o Gótico.

Os príncipes europeus da Idade Média digladiavam-se entre si. O que muito preocupou o papa Urbano II (1035-1099).

Cerca de 1095, o imperador de Bizâncio, Alexios I Komnenos, pediu ajuda ao Papa pois as suas fronteiras estavam sob ataque dos Turcos Seldjúcidas.

Urbano II achou que uma maneira de livrar os seus súbditos de tanta belicosidade, seria endereçá-la para outras paragens. Esse apelo de Alexios I veio dar-lhe a oportunidade. Urbano II incitou a Cristandade ocidental a ir combater os Muçulmanos tendo em vista a libertação da Terra Santa.

A pregação de Urbano II deu origem à I Cruzada (1095-1099), e às muitas outras que se lhe seguiram.

Foi esse desvio para outras paragens, do estado de guerra em que vivia a Europa. que deu origem ao chamado Renascimento do século XII: No século XII acontece uma notável renovação económica e cultural. É nesse “renascimento” que surge o estilo Gótico: as cidades competiam entre si, a ver qual delas ergueria a catedral mais alta e sumptuosa. As catedrais góticas não são apenas o testemunho de fé de que por vezes se fala. São sobretudo um testemunho de poder.

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Claro que presenciar este incêndio foi um grande choque. Notre-Dame foi justamente classificada como Património da Humanidade, um dos expoentes da Cultura Europeia. Também me vieram as lágrimas aos olhos ao ver aquele espectáculo infernal.

Mas as televisões deram grande relevo a aspectos que eram fruto da ignorância. E fiquei sem saber se era a ignorância ao serviço da propaganda, ou se era a propaganda a servir-se da ignorância. O que vai dar praticamente ao mesmo. E depois, há este olhar para o umbigo por parte da cultura europeia. E isso incomoda-me. Não se vê espírito crítico. Há quem diga que os erros do Passado já não têm remédio, e então é deixá-los para trás. Mas não pode, ou não deve ser assim. Essa auto-complacência leva à perpetuação dos mesmo comportamentos – a tão apregoada grandeza da cultura europeia tem sido feita à custa de outras culturas- A cultura (economia, prestígio, riqueza…) europeia é essencialmente predatória. Na Idade Média como no século XIX, por exemplo…

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Não se pense, porém, que não aprecio a cultura francesa. Claro que aprecio. Aliás, formei-me em Românicas. Mas gosto de ver os dois lados da Realidade, ou seja, os ídolos têm pés de barro:

Tal como foi recordado há poucos dias no canal TV5 Monde, a pena de morte só foi abolida em França em 1981.

Ou então recordemos que as mulheres francesas só obtiveram direito de voto após a II guerra mundial.

Não esquecendo que uma das receitas da França vem da indústria de armamento.

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Referências:

Os Templários , de Piers Paul Read; ed. Imago, Rio de Janeiro, 2001;

As Cruzadas vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf; ed DIFEL, 10ª ed, 2001

« Ces ventes d’armes sont-elles légales ? »

https://www.la-croix.com/Monde/ventes-darmes-sont-elles-legales-2018-03-20-1200922422

ENTRETIEN. Hélène Legeay, Responsable Maghreb-Moyen Orient à l’Action des chrétiens pour l’abolition de la torture (ACAT).

  • Recueilli par Laurent Larcher,
  • le 20/03/2018

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Nota:

Esta crónica foi publicada no jornal de Moçambique onde costumo colaborar:

O Autarca – Jornal Independente, Quarta-feira – 24/04/19, Edição nº 3669 – Página 06/08

 

Publicado por

© Myriam Jubilot de Carvalho

Dia 18 de Abril de 2019, pelas 12h 30m

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Três livros que se completam mutuamente

* Notas Breves — Myriam de Carvalho @ 3:10 pm

 

A Revolução Cultural chinesa e

os tempos pós-revolucionários

 

A Revolução Cultural chinesa foi lançada por Mao Tsé Tung em 1966, que através dela, pensou consolidar o seu poder apoiando-se na juventude do seu país.                      Conheço alguns testemunhos interessantíssimos sobre esse período:

Começo pelo relato auto-biográfico da pianista ZHU XIAO-MEI:

“O RIO E O SEU SEGREDO

Dos campos de Mao a Johann Sebastian Bach: o destino de uma mulher excepcional”

Zhu Xiao-Mei
Guerra e Paz Editores, 2007

Colecção A Ferro e Fogo.

Procurei na Net, a confirmação de que este livro corresponderia à realidade. Pois poderia tratar-se de uma ficção…

O livro é de facto um relato sobre a realidade:

A biografia, obviamente abreviada, desta pianista está na Wikipedia. Aí se conta que Zhu Xiao-Mei, nascida em 1949, actualmente vive em Paris, onde é professora no Conservatório.
Há também vários vídeos com gravações suas no YouTube, pois Zhu Xiao-Mei é especialista em Bach.

Zhu Xiao-Mei conta-nos como a sua vida de apaixonada estudante de piano se viu interrompida pelo turbilhão da Revolução Cultural. Conta-nos como as relações pessoais se tornaram impossíveis pela desconfiança e pelo medo, pois as pessoas eram levadas a denunciarem-se umas às outras por crimes políticos que nem sequer tinham cometido. Conta-nos que conseguiu fugir para os EEUU e como aos poucos foi retomando os seus estudos de piano, mercê da sua grande força-de-vontade e persistência.

O segundo testemunho é-nos dado através do romance:

À Espera 

Ha Jin
edições Gradiva, 2ª edição, 2000

O autor deste segundo título é o escritor chinês, romancista, contista e poeta, radicado nos EEUU, Ha Jin.
Ha Jin, nascido em 1956, conhece bem o seu país natal, e a sua História recente, pois na sua juventude, tomou parte na Revolução Cultural Chinesa. No entanto, quando ocorreu a tragédia de Tianannmen, em 1989, ele encontrava-se a estudar nos EEUU, com uma bolsa de estudos. Ha Jin não regressou à China. Optou por escrever em Inglês.
“À Espera” é uma história de amor enquadrada nos tempos que se seguem à Revolução Cultural Chinesa, e acompanha a abertura da política económica chinesa para um estilo de economia com maior margem para a iniciativa privada.
A história mostra também como a vida privada dos cidadãos chineses era controlada pelo Partido, dentro de um moralismo muito estrito.
O enredo é interessante, e conforme se aconselha para a técnica narrativa do “conto”, tem um final inesperado.

O terceiro testemunho dá-nos a conhecer a tragédia de Tiananmen, em 1989:

O Verão da Traição

Hong Ying

Edição Livros do Brasil

1ª edição, 2001

Hong Ying é uma poetisa e romancista chinesa, nascida em 1962. Vive em Londres, onde se radicou a partir de 1992.

“O Verão da Traição” é um romance cuja personagem principal é a poetisa Lin Ying. A acção passa-se nos dias imediatos aos protestos de Tiananmen, os quais a ditadura chinesa da época denominou apenas de “distúrbio”.

Nesta obra os aspectos políticos e literários estão interligados:

Ao nível da vida pessoal da protagonista, uma poetisa oriunda de alguma montanha do interior da imensa China, vemos todos os constrangimentos impostos pela censura moralista e de costumes exercida pelos rigores de extremo controlo do Partido Comunista Chinês. Ao nível político, há todos os constrangimentos determinados pela recuperação da situação por parte das autoridades dessa época. Censura, perseguições, acusações, denúncias, interrogatórios, confissões arrancadas sob tortura. Suicídios. Os intelectuais vêem-se isolados e ostracizados.

Mas há ainda outros níveis de leitura. As personagens discutem sobre as funções da Literatura, nomeadamente sobre Poesia; discutem sobre a Literatura Experimental, sobre a Liberdade, nomeadamente a liberdade sexual.

A autora desta obra é uma poetisa. Daí, que o aspecto mais importante desta obra seja o tratamento da linguagem, que é sempre poética. Tanto no ritmo, como na expressão. E o facto de a protagonista ser poetisa confere a esta pequena história um valor simbólico. Quando no final, os artistas – poetas, filósofos, jornalistas, músicos – se envolvem na orgia, Lin Ying desnuda-se. Ou seja, a Poesia representa e dá voz à alma real de um povo. Quando Lin Ying, a poetisa oriunda da montanha distante, copula com o desconhecido, a autora está a sugerir que a salvação da China está na sua alma ancestral.

 Conclusão 

Estas três obras descrevem-nos uma China recente – desde meados dos anos 60 até ao presente.

Mais uma vez se comprova como a Literatura e a História são irmãs gémeas, caminhando de mãos dadas – como eu gosto de dizer. A História descreve os factos, mas a Literatura fala-nos dos sentimentos, dos sonhos, dos feitos, e dos revezes – de quem viveu os factos descritos pala História.

Lembro-me de que o Professor Mário de Albuquerque, professor de História Medieval nos anos ’60, década em que tirei o curso na Faculdade de Letras de Lisboa, citava um professor de Direito, francês, que no início de cada ano lectivo aconselhava os seus alunos a lerem Poesia “antes de estudarem as leis” – para terem uma noção mais profunda e real do que são as motivações das pessoas que eles um dia teriam que julgar ou defender.

Actualmente os nossos programas reduzem os estudos de Humanidades… Um erro tremendo, que se pagará num futuro não muito distante. Aliás, esse futuro já é presente e já está mostrando as suas consequências – cabeças de ferro, corações fechados a cadeado, e olhos de cifrões. Ou então, talvez tenha sido sempre assim, e quem o denuncia terá sido sempre marginalizado… O que sei é que, se por um lado o ser humano sempre teve o seu lado “mau”, por outro lado, a sua perversidade sempre foi equilibrada pelas pessoas de sensibilidade. E acredito religiosamente que a sensibilidade educa-se, através do estudo e da prática das Artes! E é este equilíbrio que nunca se deveria perder…

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Publicado por

Myriam Jubilot de Carvalho

 

 

 

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